Coletivo Dois Dois – Meu Velório

06/01/2014 Coletivo

Pela janelinha assisti as lágrimas e os soluços
Na minha fria mão tocaram todos os que conheço

Rodearam meu caixão e abraçaram-se em prece
Lábios quentes tocaram meus frios lábios pela última vez

Todos meus poetas favoritos estão presentes
Alguns vivos, outros mortos, uma parcela perdidos.

O cheiro das flores, a fumaças das velas
O som baixinho das lágrimas de quem fica e sofre

Minha alma se alegra entre os choros e cantos religiosos.
Me despeço dos círculos infernais.
[minhas prisões com direito a férias, pausa pro café e décimo terceiro]

Os olhos dela marejados, sua voz trêmula dizendo que me ama
Meus olhos fechados, meu nariz tapado… meu peito inerte.

Minha mente quer ficar, uma saudade corrói meu sangue frio.
Veludo, couro, saliva. Minha mente quer orgia.

Breton, Baudelaire e Rimbaud já estão chamando meu nome.
Já me deram garantias, festas sem fim e putaria.

E tudo volta, a primeira luz, primeiro choro, primeiro afago
O sorriso farto do meu pai, os olhos marejados de mamãe…

Olhos, memória, dor nas costas.
O primeiro beijo, o gosto do sexo.

E enfim o fim, despedaçado pela terra…
Abraçado pela morte, sinto cheiro de grama.

E ver a casa vazia dói demais.
Acho que já é hora de me animar.
Estou indo embora.

Eu sei, quem fica é que vai sangrar

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: