… e o cigarro não acende

23/09/2011 Gritos do Nada

Ela bateu o isqueiro na palma da mão, mas parece que dessa vez não vai acender mesmo. Já molhou o cigarro na boca, mas com certeza seu rosto está mais molhado… e o cigarro não acende.

Ainda está com a blusa dele, e apesar do frio que faz na calçada, quando se toca arranca a blusa e a joga com raiva no chão.

Ela sente que ainda o ouve falando sobre não combinar, sobre a bebedeira, sobre a falta de tempo…

Ela lembra que não conseguia entender e mesmo assim suas lágrimas escorriam. E o panaca falava sobre eles de tal forma que, não fosse por sua cara e voz, alguém pensaria que está tudo bem.

Ele parou o carro e ela desceu, ela nem mesmo olhou pra saber onde estava, também não sentiu a garoa ou o frio e por isso ele desceu correndo e lhe vestiu a blusa.
Ele falou mais um pouco, ela não faz ideia do que, gritou pra ele ir embora e ele se foi…[quote_right]Ainda está com a blusa dele, e apesar do frio que faz na calçada, quando se toca arranca a blusa e a joga com raiva no chão.[/quote_right]

Ficou assistindo o lento sair do Pálio e ai começou a pensar sobre o que aconteceu, chorou um pouco mais, daí virou e se viu refletida no vidro da loja, e deu risada da maquiagem que escorria.

Lembrou, sentada no banco do ponto de ônibus, das suas “sumidas” e das dele, também lembrou das brigas por ciúmes e bebidas.

Pensou sobre a saudade que vai sentir, mas lembrou do tanto de coisas que deixou de fazer. Lembrou da chatice dele toda vez que ia no bar e dos seus amigos, que ele não suportava, falando que não ia dar certo.
Lembrou das camisas polo, do sapatênis e do gel em demasia…

Bateu de novo o isqueiro e este enfim acendeu, sugou o cigarro e lembrou que não podia fumar no carro, e depois da primeira tragada ela já sorriu.

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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