Numa noite qualquer

22/08/2012 Gritos do Nada

É a porta suja de mais um cinema fechado, e é lá que ela esta esperando por algo que a faça correr dali sem pensar.
Lá tem papéis velhos, revistas velhas de ofertas do WallMart, papel higiênico sujo, camisinhas usadas, sujeira e mais sujeira, lá tem tudo que ninguém quer mais…
E ela está no meio disso de tudo, sorrindo com dentes amarelados, sorrisos falsos de uma falsa alegria convidativa, fumando cigarros contados, comprados por unidade em algum bar fétido do caminho e com suas roupas baratas de couro de plástico, que lhe exibem as pernas já cansadas e com decotes que denotam os seios já caídos…

Ela com certeza já esteve em lugares melhores, já pode usar roupas melhores e fumar cigarros sem se preocupar em quantos ainda tem na bolsa. Com certeza ela já pode se sentar em confortáveis sofás enquanto distribuía seus sorrisos aos “clientes”, ela já deve ter tido seu momento de glória tendo seu nome chamado para dançar a “pole dance” enquanto todos os homens aplaudiam e babavam por ela…
Ao invés de cigarros de maconha divididos com várias como ela, e garrafas de pinga baratas, ela usava cocaína, cheirava no banheiro pra poder encarar sem medo àquele cliente mais porco que tinha mais grana…

Mas tudo isso é passado, e ela retorna pra realidade quando mais um carro passa e buzina e ela não é uma das chamadas… Quase todos procuram travestis, e esse prazer ela nunca pensou que acharia ruim não poder dar…

Ela vê os senhores casados, que ficaram até tarde a trabalhar, eles saem dos bares, cambaleantes, e ela sabe que eles cruzaram a rua para não passar perto dela, nem mesmo seus galanteios eles querem ouvir…

Se sente uma coisa, um poste, uma parede, onde todos passam os olhos, mas ninguém vê…

De longe vê a porta do Hotel Marrakéxi, e vê outra amiga entrando com “cliente”, e ela tem inveja, ela que sempre sentiu nojo de “clientes” de rua, agora sente inveja da amiga que vai ganhar no mínimo 30 conto, pois se fosse só oral, que é 10 conto, não precisava subir pra um quarto…

Às vezes ela tem vontade de mandar tudo à merda, mandar à merda o cafetão que diz a proteger e bate nela quase todos os dias por não arrumar clientes, mandar à merda a dona daquela pensão suja, que foi assim como ela é e agora a olha como se fosse santa, tem vontade de mandar à merda o que lhe resta de dignidade e sair nua pela rua, não correndo e chorando, mas calma, se exibindo a todos os passantes…

Mas ela num faz nada disso, na real o que ela deseja ardentemente é um abraço, e pode ser de um maldito “cliente” sujo mesmo, que vai querer desconto na hora de pagar e dizer depois que ela num era tão gostosa quanto ele pensava…

Mesmo assim ela quer um homem, e suplica com o olhar pelo menos um sorriso daquele jovem que passa a pé com a mochila nas costas, e ele sorri de volta, faz um gesto pra ela como que perguntando se ela não está com frio… Ela não resisti, diz que tem muito fogo pra esquentar os dois… Ele sorri mais uma vez, bate a mão no relógio indicando que está sem tempo, e vai embora pegar o ônibus…

Ela não, ela fica, são ainda 23hs e a noite de quinta-feira é uma criança pra ela, criança que ela carrega pela mão, arrasta pelos becos mais escuros e sujos de qualquer cidade, ela imagina essa criança e lembra os 4 abortos que já fez… Uma lágrima ameaça correr de seu olho, e ela sorri percebendo que ainda tem lágrimas e pena de si mesma pra chorar…

Mas tudo pára, um carro chega, negocia, ela entra… Tudo que ela quer é um abraço, mesmo que não sincero, e poder dormir em paz, pois amanhã vai ter grana pro cafetão…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: