Míope por opção

28/09/2011 Sonhos Viciados

Mais uma das coisas que aprendi velho na vida. Sou míope. O que me alegra é que isso pouco tem a ver com aprender, mas sim de detectar o distúrbio. Meus velhos óculos estão prestes a se aponsentar e no dia do idoso ele merece uma homenagem. Vamos roubar o bolo do garoto Google, que no mesmo dia faz seus treze anos.

[quote_right]”Todo tipo de detestável se encontrava num bar improvisado dentro do cine horrorshow ou nas poltronas pra mendigo dormir.”[/quote_right]Meus óculos devem ter uns 7 ou 8 anos. E foi na mesma época que detectei que as pessoas de longe não são formas estranhas que se misturam com roupas coloridas e tufos felpudos na cabeça. Nessa mesma época eu frequentava os cinemas podrera lá da República. Cine Saci, pornô de DVD, VHS ou sei lá o que. Película aquilo não era, via dois filmes e pagava um. Algo nessa linha. Linha era tudo que os caras que lá iam não costumavam andar. Todo tipo de detestável se encontrava num bar improvisado dentro do cine horrorshow ou nas poltronas pra mendigo dormir. E nos encontros esse tempo não durou muito.

Não precisava dos olhos bons pra ver os filmes e nem mesmo pra sacar que não era uma boa andar nesse lugares quase esquecidos. Nessa mesma época vagava pelo centro as tantas da madrugada. E foi nessas que percebi que meus olhos não eram tão certeiros assim.

[quote_left]”Um vídeo de putaria nervosa passava na TV numa janela do terceiro andar”[/quote_left]Devia ser algo perto do Largo do Paiçandú as duas da manhã. Meu amigo, já tinha aprendido que era míope faz um tempo e apontava feliz pra janela. Um vídeo de putaria nervosa passava na TV numa janela do terceiro andar, da mesma linha do cinema do abandono. Um hiato.

Ele entretido em peitos e resto de cerveja quente deixou seus já vividos óculos pra eu ver a baixaria. E sim senhores. Nesse instante eu aprendia. Sou míope. E foram os 7 e 8 anos e minha miopia só agravou. Optei mais por ver os tufos felpudos na cabeça dos outros do que tentar ver cristalino. Assim me parece mais sincero.

Esses seres sem rosto que vagam por aí, na fila do banco sem dividir bom dias, como o cinema do abandono. Os anônimos perversos que aguardam seu deslize, como o bar improvisado de um centro sujo de qualquer cidade. Escolhi as formas incertas das moças que não me reservam histórias de amor, só a traição de saber que no fim as letras sobem. Como no cinema da baixaria. Com direito a atriz, diretor e gemidos falsos.

Sou um míope por opção que não lê os créditos quando tudo termina.

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

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