Moço da pele morena dos índios da Linha do Equador

Era verão, de um verão que te derrete a alma de tão intenso. A alma dele podia-se perceber pelos olhos. Ah, os olhos! E junto com eles vinha o andar confiante, arrogante, de quem conhece os caminhos – mesmo que não os tenha trilhado.

Era mais moço que eu, mas estar em sua presença me fazia menina, mulher, mãe. Fazia-me pequena, mas de uma pequenice gostosa, daquela que é
cuidada, acalentada. Ele tomava as rédeas da situação, deixando-me sem meu maior poder: a arte de comandar. Mas, mesmo assim, eu tentava. E como tentava.

Tentava não ligar, tentava não me importar, tentava não sorrir debilmente após cada encontro, cada telefonema, cada mensagem. Tentava. E foi tentando que esse moço da pele morena dos índios da linha do Equador, derrubou os muros ao redor de mim.[quote_right]o cigarro fazia parte de nós, assim como eu, naquele momento, naquele ponto, fazia mais parte dele que ele próprio.[/quote_right]

Poderia dizer que foi lentamente, pouco a pouco, um passo de cada vez. Não foi. Foi brutal, foi instantâneo. A febre, a doença, o desespero que há tanto são minhas companheiras, se tornaram minhas donas. E pra disfarçar o alvoroço dentro de mim, eu esnobo, finjo indiferença, viro atriz.

Ele percebe e me puxa pra junto, pede, sussurra pra eu não ter de fazê-lo. Calma, pequena, vai ficar tudo bem – ele diz. E eu penso se, ao menos, ele soubesse aonde está se enfiando.

Minha casa está uma bagunça, cuidado. – disse-me na primeira vez que saímos juntos. Se você pudesse ver dentro de mim, acharia isso pouco, pensei. Esse moço da pele morena dos índios da linha do Equador tinha como o hábito, o fumo – e eu também. E, naquele verão, o cigarro fazia parte de nós, assim como eu, naquele momento, naquele ponto, fazia mais parte dele que ele próprio.

 

Debora Alvares

Ela, o que dizer dela! Primeiro que ela não cabe em 1, 2 ou mil frases!
Ex-fumante (até o próximo cigarro) estudante de economia da UFSCAR, viciada em duas vidas, nessa que a gente vive teclando e na outra que a gente vive errando.
Me disse uma coisa bem bonita (e cafona): “… fala que, apesar de eu lidar com numeros, navego no mundo das palavras…”
O Corvo deseja que seja o primeiro de muitos!
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Hábitos necrófagos é a extensão do prascucuias, a legião que se alimenta e regurgita do mesmo submundo. Do mesmo mundo, dos mesmos sabores. Estaremos em todos os cantos e embalagens. Esquinas e palanques. A autoria desses textos é de quem passou a barreira do conformismo e mandou um email pra gente. Escreva também no prascucuias, envie um email para mande@prascucuias.com.br

Comentários

2 thoughts on “Moço da pele morena dos índios da Linha do Equador

  1. Parabéns pelo texto.
    Gostei especialmente desse trecho: “E pra disfarçar o alvoroço dentro de mim, eu esnobo, finjo indiferença, viro atriz.”

    Quem nunca fez isso? xD
    A paixão tem essas contradições…

    Bjs 😉

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