Charles não entendia a dimensão do que estava sendo lhe pedido. E não sabia se poderia atender, nem se atenderia. Para ela seria um último respiro antes de ir embora de uma forma quase irrevogável.

“Por favor”, ela dizia sem emitir algum som. “Por favor”, brilhava em seu olhar enquanto encarava o perfil de Charles. “Por favor”, emitia em ondas através da pele quando tentava se manter mais próxima dele na fila do supermercado. “Por favor”, ecoava através dos lábios inferiores que mordiscava enquanto tentava fingir prestar atenção no que ele dizia.

Ela estava sedenta, suplicante. Só havia percebido o tamanho dessa necessidade depois de algumas horas na praça recém lavada pela chuva. Teve uma certeza tão profunda – uma certeza que não tinha nem sobre ela mesma – quando dentro do quarto de Charles, em meio aos livros e instrumentos musicais o observava colocando a mochila nas costas e chamando para ir embora. O ônibus passaria dali à 10 minutos. Mas tudo o que ela queria era fechar a porta e ficar.

Ela se sentaria na cama de Charles e pela primeira vez em tanto tempo se permitiria ficar. E talvez ele entenderia todas as ramificações do que ela disse semanas antes:

– queria ficar trancada no seu quarto agora, mesmo que pra levar uma guitarrada na cabeça.

Charles a veria sentar em sua cama, fitando os próprios pés. Perceberia também que o rosto levemente avermelhado por timidez contrastava com os bicos dos seios dela marcando a fina blusa de cetim preto. Ela tiraria os tênis vermelhos e levantaria até a janela, ficando de costas para ele, para os instrumentos e a estante de livros. Charles hesitaria, mas por fim se permitiria se aproximar abraçando-a, cruzando os braços no ventre dela e aconchegando o rosto em seu ombro branco salpicado de sardas escuras.

Ela desmancharia a pose fechando os olhos, sentindo a barba por fazer arranhar seu pescoço e respirando lenta e profundamente. Sentiria ele aspirar seus cabelos e roçar o nariz levemente em sua nuca e orelha. Se sobressaltaria com os dedos subindo pelo umbigo e as mãos alcançando os seios. Ele sentiria o prazer inédito que era despi-la.

Charles começaria gentil, finalmente entregando à necessidade de explorar aquele corpo acessível a todos, menos à ele. Até este dia. Ele não saberia que pela primeira vez ela estava se entregando de uma forma como nunca se entregou aos outros. Ele não saberia que pela primeira vez ela se sentia completamente excitada com o casual e principalmente por ser ele desta vez. E a gentileza se transformaria em um desejo quase violento. Dois desejantes se chocando contra si. Línguas, saliva, suor, arranhões. Ele não teria medo de desvendar cada centímetro da pele dela. Ela não teria medo de entregar tudo de si para ele. Ele seguraria o rosto dela olhando firme nos olhos que ele tanto havia gostado quando se conheceram. Os lábios irrigados e inchados dela o incitariam a toca-lós com o dedo médio e introduzi-lo a seguir em sua boca deixando-a umedecer com a língua, chupando. Ele a beija e se firma dentro dela. Ela se arqueia embaixo dele e ele a puxa ainda mais para si. Eles se contorcem um para dentro do outro. Se perdem.

Charles não sabe, mas enquanto caminha apressadamente para o ponto de ônibus o pensamento dela corre veloz pelo último parágrafo e continua dentro do quarto dele. No ponto de ônibus esses pensamentos fazem os lábios dela ficarem pálidos e ela tenta ficar o mais milimetricamente próxima a ele sussurrando imperceptívelmente “por favor Charles, só dessa vez”. Charles não sabe mas o amor dela por ele esta vermelho e é impossível.

– por favor, Charles.

E não sabe que ela não precisa pedir.

Kivia Kruczynski

A Kivia é uma velha conhecida do pessoal aqui dos Prascucuias e autora de textos matadores, como esse ai de cima. Talvez ela saiba, talvez não, mas seus textos são avassaladores em nossas cabeças e dão aquela força criativa para continuarmos escrevendo aqui no prascucuias. Faça como nós e salve nos favoritos todos os cantos que exala a criatividade dessa moça.

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Hábitos necrófagos é a extensão do prascucuias, a legião que se alimenta e regurgita do mesmo submundo. Do mesmo mundo, dos mesmos sabores. Estaremos em todos os cantos e embalagens. Esquinas e palanques. A autoria desses textos é de quem passou a barreira do conformismo e mandou um email pra gente. Escreva também no prascucuias, envie um email para mande@prascucuias.com.br

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E ela ainda adora Clarice Lispector: “..estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda”.
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Onde as flores me fervem aos olhos
Sobre as águas que me atravessam
Desoladas sem caminhos

Caio Richard

Nasceu na terra que é berço da poesia brasileira: São José do Egito! Mas sua ambição não cabe mais na cidade do Sertão do Pajeú. Capaz de falar as coisas mais certas, mesmo depois de consumir as coisas mais erradas.
Proporcionou noites maravilhosas e maravilhou-se com a beleza de cada lua em cada noite.Esse é o Caio? Não, nem um terço dele.
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