Caos – Terrorismo poético e outros crimes exemplares – Hakim Bey

24/08/2011 Resenhas de Livros

Qual melhor livro que eu já li?

– Caos – Terrorismo poético e outros crimes exemplares!

Assim, rápido, sem muito pensar. Talvez pensando com carinho exista algum outro, mas não importa, ele o é top of mind.

Mas vou chegar até aqui, antes vou voltar e contar uma histórinha. Teve um tempo que dei de cara no Manual Prático de delinquencia juvenil, um livro gratuito na internet. Na época estava lendo umas coisas de copyleft, umas paradas políticas pesadas, muito longe da ideia do “de graça é mais gostoso”. Tinha acabado de conhecer aquela história do movimento freegan. E nessas acabei lendo o livro que tem como um dos pilares o livro dessa resenha, o tal manual.

Não tinha como ser melhor, os boas-vindas foi um soco na cara, o tal manual, que pode ser baixado aqui, contêm vários relatos de atentados ao status quo. Uma espécie de Emma Goldman, quando lançou o “Se eu não puder dançar, não será minha revolução”,[quote_left]”Se eu não puder dançar, não será minha revolução”
Emma Goldman[/quote_left] e o livro é quase isso, mas se a revolução não for divertida ela não pode ser autêntica.

Acabei conhecendo mais histórias e mais personagens, Luther Blissett, black block, Éris e a discórdia, por fim, Hakim Bey.

Hakim Bey, pois sim. Até que enfim. Se antes foi o soco aqui foi a luz no fim do túnel. Se a física já prevê que tudo vai dar em Caos, aqui o Caos é o inicio, o mais velho dos deuses. A anarquia nunca foi tão palpável e possível. O livro é quase poesia, quase baixaria e devia vir com selo, uma espécie de aviso. Religiosos e alguns tipos de reacionários leiam com cautela.[quote_right]”Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível…Fique nu para simbolizar algo…”[/quote_right] Mas no fim o livro propõe uma quebra na linguagem. Que as imagens que assimilamos de modo quase silencioso podem ter novos significados. É um convite para repensar nas convenções e protocolos. O uso político da arte, do humor e da religião são instrumentos usados por toda a história e aqui não é diferente. Uma insurreição popular cheia de graça, dança e comédia. Uma ousadia mais que atrasada, pois a arte viveu sua era de dadaísta, surrealista ou coisa que o valha, mas qualquer coisa que tentasse ser política não.

O texto é uma coleção de artigos publicados na década de 80, comecinho dos 90. Que invoca práticas de combate para ruir sistema de dentro para fora. Afinal, estamos todos infiltados num sistema de lixo e negá-los com ações de critica temperadas com sátira pode ser uma saída inteligente.

[quote_left]”Conquanto nenhum Stalin fungue em nossos pescoços, por que não fazer alguma arte a serviço de… uma insurreição? Não importa se é “impossível”. O que mais devemos aspirar senão o impossível?”[/quote_left]

Happenings para encher de orgulho muito Andy Warhol por ai. E eu ainda aspiro escrever comunicados e manifestos tão bem humorados e constestadores como Hakim Bey. Aspiro, como se fosse “impossível”. E se quiserem arrumar gente para ficar nu e quem sabe simbolizar algo, me chamem! Mas enquanto isso não acontece leiam esse livro, indicadissímo!

Desde então não sou mais radical…

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

Comentários

2 thoughts on “Caos – Terrorismo poético e outros crimes exemplares – Hakim Bey

  1. Putz! E digo mais… Dizem por ai que jim Morrison deciciu montar o The Doors após ler o On the Road, Caos está mim como On the road para Jim, a diferença que decidi pegar garotas e morrer ao 27.

  2. Porra cara! Posso dizer que foi um dos que me fez pensar além das imagens que tapam nossa visão durante o dia dia. Lembro sempre da passagem sobre matar os policiais dentro de nós, sobre a liberdade de verdade… era tudo tão possível, e tão distante, e era do caralho!

    Falar a verdade, acho que o Manual foi o que me tocou mais, era a ação de fato, um “como fazer” realmente, o título “manual” ficou realmente perfeito.
    Lembro de ler a parada numa tacada só, sentando em frente ao computador (num imprimi, vi no arquivo que você me mandou) e foi um tapão na cara mesmo… e a história, aquela que permeava as ações, do medo, da amizade, também era fascinante.

    Li as entrevistas Halim Bey, pode parecer até bobagem, mas é um daqueles caras que a obra é bem maior que o autor! E isso é ainda mais lindo! rs

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