Observo os potes. São cebolas, batatas, não sei se pingas com ervas ou qualquer coisa curtida num vaso grande de vidro. Vejo navegar ali vermes, bichos centenários, minhocas brancas com pernas. Só eu vejo, o resto fala sobre o futebol, menino Sócrates que tomou todas.
Viro o copo de conhaque nesse fim de tarde de frio absurdo, quase raro para um paulista, normal para um rio-sulense, a morte para um paulistense. Meu estômago ferve, cozinha. As moças de biquini nos cartazes me oferecem uma cerveja. Uma garrafa. As moças com perfeição de Jr. Duran sem o glamuour do coelhinho. Com photoshop nos dentes. Juro, tem uma minhoca branca com pernas no pote.
Tem as paredes com rejunte preto pintadas a mão pelo tempo. Habilidade de Botticelli. Tem meu Dreher old eight. Estou enganado da vida, contemplando o pote que envelhece junto esses senhores órfãos de família.
Queria navegar na gosma espessa que esquenta o pote de alegrias meias, alegrias de bar, alegria de quem só ri por intermédio da pinga.
Hoje esqueci a chave, escolhi não pegar a blusa. E hoje é um dia de Ártico, impraticável pras moças de biquíni e seus risos de praia.
Escolhi errado, eu sei, assumo os riscos tomo outro gole. Queria dançar entre as ervas do pote de mil anos. Um mergulho, um giro. Ia conhecer muita gente feia, como a minhoca branca com pernas, mas todas prontas pra assumir os riscos. É um relicário. Valores raros hoje em dia, um universo paralelo que ninguém quer flutuar.

Achei fantástico o que texto. Esse desvaneio que se segue com pequenas imagens que vão aparecendo.
E quanto ao universo paralelo, flutuo por vários, eles sempre me dão o que escrever.