Uma foto nossa de dez anos atrás.
Em P/B pra dar um drama, aumentar as marcas das quase nulas rugas do nosso rosto. No tempo que os sonhos todos eram quentes, possíveis e não dormiam em paz na gaveta. Dou risada, mais dez anos e conversaremos de botox, diabetes ou eu tenha mais habilidade para manter uma conversa sobre fraldas.
Um report scene sem trilha sonora, quando a juventude vai secando sempre aparece alguém que começa a gostar de bossa nova e essa música no meu ouvido não emplaca. Coloca no mudo, deixa a mente ir além. Eu tô voltando pra casa, TV ligada sem ninguém na sala, dois lances de escada e logo lembro de nossa foto de dez anos atrás. Naquele tempo cruzávamos a cidade as 3 da manhã de bar em bar com vigor invejável. Tô no terceiro lance de escada e parei pra pegar um ar.
O tempo voa silencioso, desliza na ladeira como um rolemã sem freio. Só se dá conta quando se rala o joelho ou deixa no asfalto o tampão do dedo. Quero uma foto, nossa, tua, congele esse riso pra quando eu voltar.
Quem vive de mudança sempre mexe nas gavetas, reencontra fotos antigas e acorda os sonhos. Eu tô voltando pra casa, tem trilha sonora, foto em P/B pra dar um drama.
Eu achei uma foto nossa de dez anos atrás. Acorde os sonhos, esboce um sorriso. Eu tô voltando pra casa.
