Corremos na madrugada fugindo do bar
do hits paraenses, do chapeiro e da sua faca afiada.
Corremos duas ruas fugindo do bar com a conta aberta.
Mais dois blocos, uma avenida feia e outras vielas repetidas.
Vencemos a cidade e seus medos, a favela e seus perigos.
Já não escutamos as vibrações da jukebox
e nem as tônicas das máquinas caça-níqueis.
Estamos correndo numa madrugada, já sem saber o motivo.
Talvez fugindo das leis do condominio, das praças de alimentação,
dos parques de diversão sem montanha-russa.
Estamos exaustos, mas uma curva, pequenos delitos.
Nosso corpo juvenil embebido de alcool e inconformismo.
Isso já faz alguns anos, mas é como se ainda estivéssemos correndo.
Das leis da física, dos números complexos, do chapeiro e seu bigode.
Do mundo de aparência, da falta de dinheiro e dos nossos sapatos furados.
Dois garotos, nem tão garotos, execrando modelos, nenhum talento,
pouco dinheiro, roubando cerveja.
Dois garotos ainda correm na madrugada, fugindo do bar, da aberração que somos.
Dez anos depois, dois garotos ainda correm na madrugada.