Quero vestir a loucura e as roupas dos mendigos e ainda ser invisível.
Jogar dominó num boteco qualquer, aproveitar um churrasco num puteiro de luzes azuis.
Quero o emprego de carregar cimento ou um ofício daqueles que os clientes nem olham na sua cara.
E no fim do dia deslizar no sofá, ver as notícias, talvez eu ligue pra ela. Talvez.
Quero o peso do dia comum, quero os pombos lutando pelos restos do meu lanche.
Quero os ônibus cheios, quero gente esbravejando dos problemas e se anulando neles.
Hoje sou todo problemas e me mergulho neles. E vou deixar eles picarem minhas canelas calejadas pelo futebol da rua.
Vou deitar anestesiado, sem dores, indiferente.
Vou sonhar com as ruas de enganos e destinos absurdos.
Vou querer o peso do dia comum, hoje serei um completo figurante, um anônimo que não faz nenhuma diferença na sua vida. E assim, nem você na minha.
Nesse vácuo serei, para toda eternidade, feliz.