O assunto em voga por aqui é a página em branco. A mecânica da inspiração, o insight. O processo criativo. Destroçar a palavra e extrair sentido, significado, coloca-lá numa frase e reger uma orquestra. Tem gente que lê partituras e isso deve ajudar. Dar segurança pra enfiar a estaca no coração do vampiro e não hesitar. Tem gente que convive com os vampiros todos e vaga sem sentido. Com seus dêmonios e medos. Suas páginas em branco. O bloco de mármore esperando ser esculpido.
Eu mesmo não sei. Não sou escritor e sei que não é hobby, pois hobby é coisa de velha rica. Finalizei esses dias algo que vai nesse encontro, uma explicação pelo hábito de escrever e a batalha da página em branco. Descobri, também esses dias, que é normal se aprender a ler de verdade na primeira série, como foi o meu caso. Lá nos meus tempos parecia que só eu era o atrasado da história. Lembro até hoje quando não consegui ler Deus numa frase. E nem Deus pude interpretar.
O texto é sobre aquele momento que não pude ler Deus, sobre escrever.
Descobri que não existe nenhuma ciência quando escrevo.
Uso da tática tentativa e erro.
Lembro da minha primeira série, das leituras só Jesus Salva.
E não me saia uma palavra.
Só jesus salva.
Escrevo como um varal, que Marias estendem a roupa. [uma hora seca]
E as palavras ficam em prendedores de madeira velha.
As vezes tem cor, como a manta tecida por peruanas pobres.
E vejo a maestria de pintores coloristas pós-modernos como a meta de um atleta no salto em vara.
(e eu não sou atleta)
Não espero troco, nem conforto.
Se Deus é por nós.
Só Jesus Salva.
