Cheios de ódio e malácia os malabares no farol
Os carros zunem pelas ruas escuras…
Ao longe, num rádio, um grito rouco de gol.
Mas naquela noite ela me beijou de outro jeito,
Senti suas coxas pela última vez,
meu jeito estranho de dizer adeus.
O vento chiava nas janelas, empurrava as folhas no chão
Dobrava as cabeças dos corajosos que seguem a pé
Bagunçavam o lixo que uma velhinha varria em vão…
Os sorrisos ainda reverberam no meu crânio,
E ela sabia sorrir com inocência,
enquanto me fazia tremer de desejo e perdição.
Mesmo assim garoava nas ruas escuras de uma São Paulo qualquer
E via correr pras marquises os desavisados sem proteção
As roupas pesadas, o andar doloroso, um leve cheiro de mulher
No meio do caos um cheiro me fez lembrar
Do modo como usava meia-calças,
de como mostrava um pedaço íntimo do seio.
Mais um ônibus passou direto…
Estou sem coragem de esticar a mão
Todos se amontoam pra aquecer, ninguém troca uma palavra.
Ela dizia coisas sobre Tolstoi, ironia.
Uma sonata a Kreutzer.
Serei para sempre seu devasso e você minha libertina.
O empurrão pra entrar logo no coletivo me tira do devaneio
Ônibus lotado, o piso molhado e sujo transmite tristeza
A tristeza do seu nome, agora oco, no meu celular…
O motorista conta os trocados, sufoca os segundos,
o olhar do garoto lhe incomoda e aproveita para lançar-lhe a cara de coitado,
o motorista abre janela, dá as moedas, ele só quer sair dali.
Tentava voltar pra ela e suas coxas, sorrisos e historinhas
Só lembrava das últimas conversas chatas e sem sentido…
Ela ainda sonhava essas coisas de menina.
Iria a Europa, quem sabe desse sorte e acabasse rica.
Eu só adorava fuder com o seu rabo olhando pro espelho
Hoje ela não está aqui, mas é como estivesse
Ontem ela estava lá… mas era como senão estivesse
Transei com um fantasma, meu jeito estranho de sentir prazer.
