Embarquei num ônibus qualquer, não me importa o destino, itinerário, horóscopo, como anda minha sorte e nem se a viagem será longa ou curta. Tenho um único pedido, que não seja circular.
Ninguém quer voltar pro mesmo ponto. Eu também não. Hoje não terá atrasos, chamadas telefônicas, nem e-mails respondidos. Embarquei num ônibus sem saber o destino, sem hora pra voltar.
Palavras-cruzadas entretém, livros te desligam do tempo e revistas lhe dão sonhos de plásticos. Talvez eu fosse mais feliz se tivesse feito um seguro igual ao anúncio da revista. Acontece que não tenho dinheiro.
E quem quer segurança não embarca num ônibus sem saber o destino. Por um instante espiei os enigmas do cara ao lado. Revista Coquetel pirateada.
“Magistrado romano com 4 letras”
Desvendar mistérios alheios é entediante.
Talvez eu desça no próximo ponto, talvez eu vá até o ponto final. Pra quem não sabe o fim, pouco importa.
Minhas molduras são janelas que trocam de paisagens a cada dois pontos. O asfalto é um tapete rude que desgasta quem desliza por ele.
Embarquei sem saber o destino e o fim.
E o teu ônibus é circular?
Ainda não embarcou em um? Hora ou outra vai precisar.
Saber o destino ajuda? Não sei. Embarquei num ônibus qualquer.
