Adriana Calcanhoto e física quântica

11/05/2011 Colunas - Sonhos Viciados

Ela se parece a Adriana Calcanhoto lá no fim dos anos 80. Esse foi o apelido pra moça de rosto delicado, cabelo curtinho, pele branca e sorriso arrebatador que meus amigos lhe deram. Adriana Calcanhoto, realmente se olhar bem parece. Corpo míudo mas ela toma espaço, todos a reconhecem e conhecem, de longe e de perto.

Cuidado no cabelo, na roupa, nada lhe escapa e deve ser por isso que chama tanta atenção. Figura sempre presente nesse lugar de destestáveis, com caras tatuados, moças com roupas sujas e tipos estranhos que só bebem, como eu. Já disse que todos a conhecem, então, seu rosto quase angelical não passa sem arrancar olhares, até das moças. Ainda não sei porque ela sempre aparece, deve ser pra dar uma animada na sua auto-estima. Ela estudou física numa dessas faculdades públicas, mora num apartamento bacana a duas quadras da augusta e sempre tem tempo e dinheiro pra viajar pelo mundo.

Mesmo com a cara de menina não esconde que já deu uma passadinha dos trinta anos e hoje ela veio com uma faixa no cabelo como aquele famoso cartaz da pin-up mostrando o “muque”. Sorridente como sempre, fala com todo mundo. Reconheceu um povo, conversou um pouco com os garçons e logo puxou uma cadeira, sentou na mesa e começou a falar. Ela acha eu e meus amigos pra lá de estranhos mas de algum modo ela gosta de conversar com gente.

Não entendo nada dos filmes que ela assisti e me deixa pra lá intrigado como paga as suas aventuras com seu emprego mediano num laboratório que faz sei lá o que. Bom, no fim não me interessa. Me assusta toda vez que ela chama um suco de laranja, pois é, Adriana Calcanhoto não bebe, mantém sua alimentação repleta de frutas e verduras. Essa Adriana também gosta de samba e MPB.

No fim ela é tão estranha como esses caras tatuados, sei que ela busca abrigo com esses leões sem vontade. Ela é um daqueles olhares de meia idade que me assustam, de algum jeito ela perdeu as esperanças e aflita tenta ser, e se convencer, que todas as bobagens que ela um dia acreditou são possíveis e verdadeiras.

Dou aquelas risadas sem jeito e continuo a beber descontroladamente, estou no grupo dos caras que não quer te comer e nem tem interesse nas suas histórias e isso gera uma atmosfera que intriga essa Adriana Calcanhoto, de roupas modernetes e bem cuidadas. No geral estou pra lá de bêbado e não posso negar que seu bom astral me tira umas boas risadas. No fim tudo fica bem, chega um cara sempre mais estranho que também está no grupo que dos que não quer te comer e ela sai, com seu suco de laranja até outra mesa. Se auto-estimar.

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

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