Cheios de ódio e malácia os malabares no farol
Os carros zunem pelas ruas escuras…
Ao longe, num rádio, um grito rouco de gol.
O vento chia nas janelas, empurra as folhas no chão
Dobra as cabeças dos corajosos que seguem a pé
Bagunça o lixo que a velhinha varre em vão…
Garoa nas ruas escuras de uma São Paulo qualquer
Correm pras marquises os desavisados sem proteção
As roupas pesadas, andar doloroso, um leve cheiro de mulher
O vento gela a espinha dos mendigos molhados
Melhor passar e nunca ver…
Uma criança dorme no chão, seus malabares ao lado
Talvez no sonho ela saiba o que é viver…
Apresse o passo, finja que é pelo frio
A mão sobre o peito pode esconder
A dureza da vida faz nosso peito vazio…
