Existe um lugar para se morrer

20/10/2010 Colunas - Sonhos Viciados

Eu comi um lanche velho e gorduroso
revesti meu estômago com uma pinga envelhecida
em estantes empoeiradas e garrafas milenares.

Meus olhos travam na dança de putas
que se perderam nos dias e no requinte da sujeira
No embalo de uma Jukebox
que insiste em tocar hits Paraenses.

Pensei num modo voraz,
de descrever as vadias,
de alertar as crianças.

Pensei por dias, por anos,
como descrever aquele lugar.
Aquele sujo lugar esquecido, numa esquina qualquer.

Que ainda vive, com os mesmo detestáveis,
com as mesmas putas e a mesma pizza de gosto ruim.
Com os sonhos que se revezam em fichas de caça-niqueis.

Ali, nos copos cristalinos de uma pinga qualquer
ou num espumante colarinho de cerveja,
vi as histórias nascerem,
Malatesta se calar.
Lênin tremer.

Risos juvenis atravessaram as madrugadas,
naquela esquina acolhedora de vagabundos e sem destinos
palavras engolidas ficaram frequentes,
na garganta de quem já aceita muita coisa.

No pó escondido no bolso,
do bêbado de olhar profundo.
Se misturaram.

Daí surgiu os ingredientes, a platéia, os figurantes
das aventuras que se renovam.

E temo dizer, que a idade nos abraça.
Como a esquina que engole cada ser que flutua
sem atenção numa noite em que seres sabidos
dormem em suas camas quentes.

Fugir é o certo
e ser jurado de morte nesse lugar terrível é um erro
em que correr nem sempre vale a pena.

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

Comentários

2 thoughts on “Existe um lugar para se morrer

  1. A idade, filha da puta, nos alcança… mas ainda não, ainda há pique pra rir dos hits paraenses e correr para as esquinas que escondem…

    Ainda temos estomago e coragem pros lanches gordurosos e pras pizzas suspeitas, enquanto nos olham estranho das outras mesas do bar…

    Temos, quem diria, ainda pudor de ver aquela senhora com mais de 50 anos sair do banheiro masculino contando 20 reais na mão…

    E voltamos a correr, gargalhando, os tais risos juvenis, que ainda nos acompanham… ainda vamos pra lá? Provável, não porque podemos sair sem pagar, mas sim porque nunca saimos de lá sem sentir…

    Ficou foda cara!

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