Descanso num ponto vagaroso da tarde. Que Gregor Samsa aparece discreto na janela com vergonha demais para sair.
Que as moças deslizam com seus contos eróticos escondidos nas bolsas e os garotos, espertos demais, não vêem uma chance para dar o dia como ganho.
Descanso num ponto longe dos gélidos concretos que abraçam nossa rotina e da fúria que escapa dos nossos dentes. Longe da doce satisfação que nos toma toda vez que destruímos alguém.
Meus pés descalços sonham com lençóis de seda, eu penso em vinhos caros.
Gregor Samsa se mantém imóvel na janela, como um garotinho sem amigos querendo sentir o hálito da rua e seus perigos.
Um carro me levaria para longe, discos velhos para o lugar que eu quero ir.
Descanso num ponto vagaroso da tarde. Que casais se mutilam em suas paixões dissonantes, putas iniciam o expediente e mendigos dão o toque recolher preocupados com a fila dos abrigos.
Se Gregor Samsa olhasse bem notaria que suas asas transparentes, patas e ferraduras não lhe conferem esquisitices. O garotinho ainda se esconde nas frestas da janela, com vergonha demais para sair.
Descanso num espaço vagaroso da tarde, sentindo o hálito da rua e seus perigos, rodeado de esquisitices.
A foto que ilustra o post é do pintor Frank Kortan, Dance Hall of Gregor Samsa.
