Descanso num ponto vagaroso da tarde

13/09/2012 Sonhos Viciados

Descanso num ponto vagaroso da tarde. Que Gregor Samsa aparece discreto na janela com vergonha demais para sair.

Que as moças deslizam com seus contos eróticos escondidos nas bolsas e os garotos, espertos demais, não vêem uma chance para dar o dia como ganho.

Descanso num ponto longe dos gélidos concretos que abraçam nossa rotina e da fúria que escapa dos nossos dentes. Longe da doce satisfação que nos toma toda vez que destruímos alguém.

Meus pés descalços sonham com lençóis de seda, eu penso em vinhos caros.

Gregor Samsa se mantém imóvel na janela, como um garotinho sem amigos querendo sentir o hálito da rua e seus perigos.

Um carro me levaria para longe, discos velhos para o lugar que eu quero ir.

Descanso num ponto vagaroso da tarde. Que casais se mutilam em suas paixões dissonantes, putas iniciam o expediente e mendigos dão o toque recolher preocupados com a fila dos abrigos.

Se Gregor Samsa olhasse bem notaria que suas asas transparentes, patas e ferraduras não lhe conferem esquisitices. O garotinho ainda se esconde nas frestas da janela, com vergonha demais para sair.

Descanso num espaço vagaroso da tarde, sentindo o hálito da rua e seus perigos, rodeado de esquisitices.

A foto que ilustra o post é do pintor Frank Kortan, Dance Hall of Gregor Samsa.

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Postagens

19/01/2024 Sonhos Viciados

Reza em hospital

Tento lembrar se existia paz quando minha única morada eram as ruas líquidas do ventre da minha mãe. Reza em hospital. Peço a Deus ao menos os grunhidos das crianças lá fora.  Mergulho no meu mais triste silêncio. Os doutores, os relatórios, os sinais perversos dos desastres naturais que nos arrebatem. Eu rezo, quem sabe […]

Leia mais…

26/08/2020 Sonhos Viciados
O que será que leva dentro? O suor triste do operário?

Uma piñata feita com uma mochila Rappi

25/01/2019 Sonhos Viciados

São Paulo habita em mim

Eu sou todo saudade,Entre a São João e avenida liberdade. Eu sou todo um corpo violado,Um bar esquecido no altar suspenso das suas coxas. Eu sou todo pixo,Pura violência nos muros da sua intimidade. Eu sou todo abandono,Adormecido na fileira mais suja do cine Arouche. Eu sou todo saudade, afogado no barril de corote do […]

Leia mais…

12/08/2018 Sonhos Viciados

O comício se acaba e só o mar é infinito

Palavras de ordem em um caminho que ninguém passa. O grito das Poesias sonhadas & nunca ditas. O comício se acaba e só o mar é infinito. A fome devasta as crianças de olhos pequenos e pés descalços. Brincamos num mundo inventado onde os pederastas nos vigiam & só o sol castiga. As mentiras postas […]

Leia mais…

12/09/2017 Sonhos Viciados
Me sinto uma versão beta construída por estudantes primários fascinados por orgias que nunca participaram.

Esse é o meu poema mais ultrapassado

07/09/2016 Sonhos Viciados

A herança de todos os miseráveis

Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala. Já disse um poeta, já disse um deputado. Você escolhe o palco da vida ou a Bancada da bala? […]

Leia mais…

Artista



Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: