Joguei um jornal no lixo, jornal do dia. Todas as urgências e futilidades na lata suja de um terminal de ônibus sujo e feio. Um maço de aflições cotidianas, repleto de palavras soltas, propagandas, ofertas. Devia ter ficado com os classificados.
Deixei um amor em casa. Tenho um amigo que sempre reclama que está sozinho.
A vida feita em pequenos desperdícios. No jornal tem uma área para isso, os carinhos pagos, os assassinos soltos, um computador novo, carro do ano com preço de um antigo. Quem sabe assim meu amigo não se sinta sozinho. Devia ter ficado com os classificados.
Me aterroriza a ideia de bem estar ao comprar um punhado de qualquer coisa. Eu pagaria para matar alguém, meu amigo compraria um carro. E ficaríamos todos bem. Pequenos e rasos desperdícios.
Abandonei o jornal do dia numa lata de lixo.
Deixei um amor em casa. Isso é um desperdício.
