Enganar-se

05/12/2012 Gritos do Nada

Ele desconfiava dela…
Nada sério num primeiro momento, casados a mais de 8 anos, um garoto de 5, ele fingia as vezes não perceber as distrações dela, seu olhar perdido, o sorrisinho no rosto… mas percebia.

Ele trabalhava praticamente o dia todo, gerente de loja de sapatos.
Ela tinha parado de trabalhar para cuidar do garoto, mas agora que ele já podia ir à escola ela tinha voltado ao trabalho. Não precisava ajudar nas contas de casa e por isso pegou umas aulas só pra ter o que fazer mesmo, e também conhecer outras pessoas, enfim, sair um pouco de casa…

Mas ele vinha achando estranho o fato de ela quase não ter provas ou trabalhos para corrigir, das roupas cada vez mais bonitas para ir dar aula, não achava que devia comentar, afinal ela abdicou de tanta coisa pelos dois, que agora ela tinha direito a se arrumar sim. Mas, claro, a pulga estava lá, caminhando atrás da orelha.

Foi no futebol de quarta a primeira vez que ele achou que tinha algo errado. Um dos amigos, um zagueiro bem gordo, deu uma tirada de sarro comentando que o carro dela tinha que dar uma lavada, que ele viu o carro andando perto de onde ele trabalha e tava imundo. Ele riu, disse que carro de mulher é foda e encerrou o assunto… mas o que diabos ela estava fazendo tão longe da escola?

Ele comentou com ela, ela falou sobre uma loja de malhas… ele engoliu, não quis criar caso, além disso, era sua mulher, por que mentiria pra ele? Embora ele ainda estivesse calculando que horário ela estaria passando na tal loja, pra saber senão era hora de estar dando aula…

Então resolveu tirar logo a prova, odiava ficar nessa dúvida, não queria ser um tipo de Bento… contratou um detetive. O cara garantia resposta em até 7 dias. Ele só pediu pra ser informado sobre os dias que ela seria seguida. E assim foi.

Ela tava saindo pra dar aula, ele levava o garoto pra escola (era caminho pra ele), assim ela podia sair um pouco mais tarde. Eles moram num condomio e o carro dela fica estacionado na frente da casa, e quando chegou ao carro tinha um bilhete grudado no para-brisas: “Hoje vai ter alguém te seguindo” Ela estranhou, entrou no carro olhando pros lados…

O detetive ligou, informou que nada tinha acontecido, que ia segui-la no dia seguinte, que ele devia continuar agindo normalmente…

Manhã do dia seguinte, a familia doriana tomando café juntos, ele pegou o garoto, ela pegou sua mala com livros, deram o beijo protocolar de toda manhã (por que fazemos isso? Ele pensou.), ele foi embora. Ela foi até o carro, no para-brisas novamente o bilhete. Ela sorriu, achou estranho, olhou pros lados, amaçou o bilhete e foi embora.

O detetive suava frio, toda vez que a mulher não trai o cara ele não consegue cobrar mais caro, sempre que ele confirma uma traição o cara quer mais detalhes, ele pede mais dinheiro… mas quando não, ele fala, o cara fica aliviado, as vezes chora por ter desconfiado da sua honesta senhora, paga e nunca mais o chama… e agora, depois de 7 dias em que ela só fez ir a escola, ele sabe que vai receber o combinado e mais nada. O detetive liga pra ele, marcam pra conversar no shopping.

O detetive nada entende, ele pediu para continuar a investigação… por mais uma semana. O detetive concordou, pediu o mesmo valor, e foi embora balançando a cabeça.

Ele não parecia estar convencido… ela contiuava sua rotina, cada vez mais distraída e cada vez andando mais bonita. Nem ficar com o garoto ela andava ficando mais, esperava ele chegar e arrumava alguma coisa pra fazer em outro comodo. Ele parecia mais conformado, porém a dúvida lhe atormentava, por isso pedir mais dias ao detetive.

Dia seguinte, a mesma rotina da familia feliz e mais um bilhete no para-brisa… ela começa a ficar nervosa, com medo… quem será que está me seguindo? Pensa ela…

Dias passam, penultimo dia da investigação, o detetive resolve que não vai seguir ela hoje, nem liga pra ele nem nada. Sai pra almoçar e percebe que está bem próximo a escola onde ela trabalha, por desencargo de consciência vai até a escola, no pátio do estacionamento vê ela agarrando-se ao porteiro, escondidos atrás de um caminhão… tira muitas fotos! Sorri satisfeito, muda de posição, não quer que ele tenha dúvida alguma.

Marcam novo encontro, detetive e ele sentam-se na praça de alimentação. Detetive coloca um envolope na sua frente, ele abre, vê as fotos, as lágrimas molham seu olho, ele respira fundo enquanto olha pra cima… Depois de minutos de silêncio ele diz:
– Quando foi que você tirou as fotos?
– Tirei ontem… responde o detetive.
– Mas ontem você não me avisou que ia segui-la! Responde ele em tom ríspido.
– Não ia mesmo, acabei passando perto da escola e a vi… por que?

Ele não responde, paga a conta, pega as fotos e vai até o carro… se senta no capô e fica imaginando como pôde colocar aqueles bilhetinhos no para-brisas dela só pra adiar essa certeza…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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