Sonho Infernal

26/06/2013 Gritos do Nada

Ele sentou-se sobre uma das montanhas de carne podre e sangue e de lá pode admirar o espetáculo infernal de seres vermelhos e negros com garras e dentes destruindo e despedaçando as almas e corpos dos que haviam pecado.

E por mais que gritassem, que suplicassem, suas almas não seriam poupadas, seus algoses sorriam e gritavam seus pecados ainda mais alto do que podiam gritar de dor e horror as pobres almas.

[quote_left]Ele não sabia como, mas sabia que as almas sentiam todas as dores e medos…[/quote_left]E sua dor era eterna! Pareciam que sofriam desde sempre e sofreriam para todo o sempre, pois por mais destruídas, por mais despedaçadas as almas não terminavam, para um deleite quase sexual de seres cruéis e felizes!

O horror enfim lhe tocou e precisou virar o rosto, porém nenhum ângulo era melhor…
Do outro lado viu um lago de fogo e sangue onde as almas derretiam sem nunca parar. Via os braços levantarem-se numa vã tentativa de safar-se da dor…

Ele não sabia como, mas sabia que as almas sentiam todas as dores e medos, além de fome, sede e sono… e tudo pra sempre.

“Pra sempre” era a grande maldição…

Não consegui mais então fechou os olhos e quando os abriu viu um cortejo grotesco de novas almas, que eram puxadas pelos monstros para horrores que ele não sentia-se capaz de descrever ou ver…[quote_right]Lembrou do sonho e lá no inferno a dor parecia ser eterna, mas na sua vida parecia também ter sofrido pra sempre.[/quote_right]

Acordou!

Suspirou de alivio, mas viu da sua barraca de papelão um garoto roubando de outro um cachimbo e após conseguir procurou no chão sujo e molhado os restos de pedra que caíram durante a briga. Ao lado destes uma mulher grávida cheirava cola e bebia e também parecia fingir que não tinha dentro de si outra vida por destruir…

Deitou novamente a cabeça sobre os restos de rouba que usa de travesseiro e lembrou-se da sua mulher agora distante e de tudo que perdeu por vicio e fraqueza…[quote_left]”Pra sempre” era a grande maldição…[/quote_left]
Tentou lembrar da última vez que sorriu de verdade, sem o auxílio do álcool, e só conseguiu lembrar do cheiro terrível que existe nos cantos perdidos onde dorme que impregna em sua pele de tal forma que nem ele mesmo consegue mais se livrar…

Lembrou do sonho e lá no inferno a dor parecia ser eterna, mas na sua vida parecia também ter sofrido pra sempre.

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: