Eu peço perdão a cada vez que esbarro, como quem pede desculpas por existir
Sem olhar nos olhos cada um segue calado. Olhos mortos em gente viva
Sigo o corrimão e tomo cuidado, não quero tocar alguém e não poder sorrir
Desço e queria soluçar, pois lembro que esse martírio é só o caminho de ida
A porta abre, a manada entra, todos ficam grudados, mas em mundos distintos
Cada um no seu mundo, ignorando o próximo, mas perto pra ouvir a respiração
A porta se abre, a manada parte, a calma e a educação são conceitos extintos
As escadas sobem e descem, as pessoas se movem em qualquer direção
Eu digo boa tarde, mas é tão automático que ao me ouvir nem parece que fui eu.
Tem gente que balbucia uma resposta qualquer, a maioria só balança a cabeça…
A escada me leva pra cima, e lá a claridade machuca os meus olhos…
A garoa rasga a pele do meu rosto, mas não importa o meu deus é o relógio
“CHIIP DA CLARO, DA VIVO E TIIM!” Gritam umas moças com desânimo e tristeza
Aperto o passo, soco o fone no ouvido, me jogo pra dentro de qualquer canção
Como me jogaria pra fora disso tudo e por qualquer outra coisa, com certeza
É cansativo viver a vida servindo as vontades de todos e as minhas próprias não
Um mendigo grita pra cada pessoa e cada um finge sua surdez momentânea
Ele ri dos nossos sustos. Sua prisão é um mundo aberto e uma mente em desalinho
Prédios, crachás, horários, telefones e a tela: minha realidade subcutânea
No mundo lotado e nas milhares de ligações/e-mails me dou conta: estou sozinho.
