Júlia

10/05/2013 Colunas - Zumbido Fugaz

Eu escrevia um artigo sobre como prestar os primeiros socorros para cães e gatos, algo meio estranho que meu chefe solicitou, mas muito útil. Então me surgiu a dúvida: excessão ou exceção? Talvez nunca tenha escrito essa palavra, pois nunca fui um cara de exceções, mas sim um cara normal que estava estudando medicina veterinária por ser tradição na família, fazendo meu estágio, contribuindo com matérias para o Jornal do Grande ABC igual o meu pai fez que saia para o Happy Hour com os amigos, que pirava com os shows do Luan Santana e um pagode no final de semana com aquele perfume do Antônio Banderas…

-E aí Júlia, como se escreve exceção?

-Escreve-se com E-X-C-E-Ç-Ã-O.

-Obrigado.

Mas no fundo no fundo eu poderia considerar Júlia uma exceção, sabia? Eu tenho descendência alemã por parte do meu pai e italiana por parte da minha mãe. Imaginem que eu tenho os olhos incrivelmente azuis e cabelos ondulados negros. Portanto atraio muitas mulheres, modéstia a parte e não nego que já aproveitei muito isso. Mas conheci Júlia nessa redação. Uma mulher realmente fabulosa. Tem trinta anos e é totalmente dependente de qualquer coisa, nunca quis se casar, tem uma beleza que digo ser um tanto diferente, tem marcas da vida. Ela sofreu por um longo tempo por leucemia, seu corpo tem história, pontos por causa de cirurgias, é magra, aparentando uma fragilidade incontestável, seus cabelos são ralos e deixa-os presos, tem por volta de 1,60m. Ela é psiquiatra e gosta de ajudar pessoas com tendência a suicídio se tratarem, penso que seja pelo motivo de ela mesma já ter pensado em fazê-lo inúmeras vezes.

As pessoas da redação comentam que ela era sorridente e muito religiosa, mas quando um tumor se alastrou por sua mãe e ela faleceu, Júlia se revoltou contra Deus, pois sua mãe era a maior devota que já havia conhecido e ela então doou todas as imagens de santos que tinha em sua casa para uma paróquia carente, mas falam que na verdade ela as queria queimar. Exatamente um ano após a morte de sua mãe, ela descobriu sua doença e passou por momentos terríveis. Alguns acreditam que é a ira de Deus, outros acham que é o destino de sua família. Eu acho uma crueldade com alguém tão doce…

Tentei sair com ela, a convidei para uma balada, mas ela não foi. Criei uma emboscada, uma amiga dela marcou com ela em sua lanchonete favorita, mas quem apareceu foi eu, mas ela se revoltou e saiu chorando, dizendo ser uma brincadeira de muito mau gosto. Ela sempre pensa que eu estou tirando sarro da sua cara, pois em todos os momentos quando passam mulheres elas me deliciam com os olhos e ela não se acha o bastante para um homem com o meu porte e tão jovem. Meu desejo por ela é estranho, juro que não é compaixão, até ouviria Smiths por ela, que descobri esses dias que era uma banda, pois ela ao menos duas vezes no mês usa uma camiseta branca deles com uma calça jeans desbotada e All star vermelho que me deixam louco para tirar cada peça de seu corpo.

-Guilherme, termina logo isso!

Ah como eu gostava quando ela me interrompia nas minhas fantasias, era como se quisesse vir participar da minha loucura…

-O que é amor para você Júlia?

-Um sentimento inventado pelo ser humano para se sentir menos culpado, mas não se engane este não existe.

Eis que Júlia ferra comigo outra vez. Queria dizer o que penso em seu ouvido, mas ela não deixa que eu me aproxime, talvez pense que eu seja um maníaco, um filhinho de papai idiota, mas não sou mesmo. Sou o homem que vai dar alegria a essa mulher!

Um certo alguém simples que busca conhecimento e auto-conhecimento através dos escritos. Que se encanta por olhares e perde a noção do tempo tentando desvendá-los...

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: