Irina

16/04/2013 Gritos do Nada

Ela colocou pausa e correu pro banheiro. Desde que a Irina viu a tal loirinha que é assim, a loirinha vai ao banheiro, Irina corre atrás…
Correr na real é meio forte, apesar da insistência em dizer que está fazendo regime, sua silhueta redonda e seus bolsos da blusa de moletom cheios de Twix não permitem que ela corra como gostaria.

Já tomou algumas broncas por exceder o tempo de 15 minutos permitido para pausas durante o dia. Mas nem liga mais, depois de 7 meses vendendo planos de internet para uma lista infindável de ex-clientes nervosos, ela já não tem mais tanto apreço pelo seu emprego de segunda a sábado.

A tal loirinha foi ao banheiro apenas atender o celular, Irina senta-se no vaso e presta atenção… As palavras “amor”, “lindo” e “coração” a fazem desistir da paixonite…

Irina trabalha a noite na Soul Rock, uma balada de Rock na Zona Sul.
É daqueles lugares escuros e sujos onde o som das bandas não soa bem e as bebidas que mais saem são sempre as mais baratas.
Os banheiros, no canto do bar, são poucos mais que quartinhos, ao entrar você não saberá se você mijará no banheiro ou o banheiro mijará em você.

Ainda assim nas sextas, sábados e às vezes até nos domingos, Irina está lá: toda de preto (como sempre), maquiagem pesada e uma disposição surreal pra arrumar alguma confusão.

Ela trabalha lá quase de graça e faz de tudo: atende na porta, acompanha as bandas covers e entrega panfletos na rua toda quarta e quinta. Aliás, outra esquisitice da Irina, ela só entrega os panfletos para meninas e sempre dá um jeito de tocar as mãos delas quando entrega um dos papeizinhos.

No momento Irina tem ficado com uma moça que conheceu numa das noites no Soul Rock, se orgulha falando que a tal menina era hetero antes dela…

Irina não conta, mas em sua casa ela também “ainda” é hetero e chora todas as vezes que ouvi sua mãe comentar com o pai, pensando não estar sendo ouvida, que a menina tem que se cuidar mais, que tem quase 21 anos e nunca levou um “namoradinho” pra casa… O pai parece perceber, mas não se envolve… Seu pai nunca se envolve.
Nessas noites Irina costuma rezar baixinho, enquanto chora só pelos olhos…
Não sabe se pede perdão pelo que é ou se pede forças pra enfrentar o que não entende… Irina reza, mas não sabe bem por que…

Irina pega trem e todo o dia tem alguém pregando, falando da abominação que é ser gay… Irina tenta crer que um Deus de amor não será contra o amor que ela sente…
Mesmo assim o crente com o bigode suado fala de um Deus que odeia e que abomina…

Irina aumenta o volume da música que toca no fone e ouve de Joan Osborne:

And yeah, yeah, God is great
Yeah, yeah, God is good

Ela prefere o Deus de amor do qual se lembra…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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