Ela pediu outro café, mas precisou falar novamente com o atendente do balcão que dividia sua atenção entre seu decote e os gols da última rodada na TV…
Deu as últimas mordidas no pão na chapa (como é bom pão na chapa né?) e dê um gole só terminou o café puro que o atendente, enfim, colocou no seu copo americano.
Era enorme, devia ter 1,85cm, talvez mais. Poucos se aproximavam pra ter certeza, seu nome era um mistério guardado a xingamentos e navalhas, deixa-se chamar por Poliana.
Poliana sem sentindo algum, pra falar a verdade nem faz ideia das conotações literárias do nome que escolheu, e numa rápida conversa se percebe que Poliana, nada tem de Poliana.
É um desses seres noturnos, notívagos, que assustam e estranham as pessoas acostumadas com a claridade da manhã, mas Poliana nunca termina sua noite quando a noite termina.
De 19hs as 05hs da manhã não parece ser tempo suficiente para cansar Poliana, a noite precisa fazer mais que isso, e de manhã lá está ela, no bar/padaria/lanchonete/restaurante onde começou a noite com as primeiras doses de bombeirinho (bebida forte e doce).
Poliana não liga para os olhares de curiosa reprovação, tem gente que ri, gente que muda de lugar, Poliana acostumou-se a não passar despercebida, e sua figura, roupas noturnas e maquiagem fortíssima, não tem como não causar algum espanto.
Os atendentes já se acostumaram com o seu fingido mau-humor, suas investidas e xingamentos. Mesmos rapazes que quando ela está de frente miram o decote, quando se vira, é para as calças apertadas, shorts curtíssimos ou vestidos sumários que os rapazes olham…
Quando um percebe que outro está olhando se provocam, riem, e Poliana ri também, nasceu para chamar a atenção e é quase que só assim que ela fica feliz.
É uma dama da noite, vende seus preciosos minutos e “dotes” pelas avenidas escuras de uma cidade industrial qualquer… Tenta ser diferente das outras, que lotam as calçadas dessa avenida, mas, para quem não tem o olho treinado, são todas iguais: sorrisos convidativos, poses sensuais, roupas minúsculas, e, ao que parece, uma incapacidade de sentir frio, ou de se fragilizar com sua condição… A rua é prisão pra elas, que entram em carros que podem trazer R$ 30,00 ou espancamentos e morte.
Poliana apanhou uma vez apenas, uma esposa traída que tinha contratado um detetive, (se deixou apanhar diante da fragilidade da pobre mulher), mas conhece histórias de amigas que apanharam de grupos, de gente que joga coisas, transfigura rostos das amigas…
Ela conta todas suas histórias sem problemas, nada parece dar vergonha a Poliana, conta, com riqueza de detalhes, dos clientes da última noite, dos estupros e abusos que sofreu do pai e dos tios e consegue sorrir ao final de cada história… Poliana só não revela seu nome, mas tem gente que jura que é Gesair.

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