2 – Dois Caminhos em Um & O Fim ao Segundo Round

30/07/2013 Gritos do Nada

Dois Caminhos em Um

Seus olhos se cruzaram várias vezes
Se viam quase sem se enxergar…
Admiravam mutuamente suas qualidades
Não pretendiam passar apenas do olhar

Ouviam-se e deliciavam-se em conversar
Afinal tocar era algo invasivo demais…
Bastava apenas ouvir pra provocar o riso
Acreditavam mesmo que podiam apenas se ouvir

Braços são 2, longos e desengonçados
E as vezes suas mãos viravam uma, sem querer
Ruborizam suas bochechas, não queriam acreditar
E os olhares tornaram-se diferentes ao se cruzar

Tudo era duo para os dois que trilhavam seus caminhos
Mas os olhos de um não se cansavam dos olhos do outro
Então num ponto qualquer os dois caminhos viraram um
Ainda são 2, diferentes, mas a vida agora é uma só…

O Fim no Segundo Round

Não ouve mais nenhuma palavra, nem tem vontade de ouvir
O urro da torcida atrás de si sufoca até o som dos pensamentos
Mesmo assim o treinador grita nulidades e obviedades…

O congo soa! Ele levanta enquanto tiram o banquinho do octógono
2 olhos fixos nos 2 olhos do homem que até agora o massacrou
Levanta os punhos, tudo é pela última vez… sem espaço pra errar!

Um dois, um dois… ele conta mentalmente a sequência dos jebs
Gira sobre o meio do octógono, sente o sabor do seu próprio suor
Bate, empurra, soca em cima, soca embaixo… levou ele as cordas!

Um soco mal pensando e BANG! Seu oponente acerta sua têmpora!
Ao invés do urro da torcida um zunido toma conta de tudo…
Fora do octógono um opaco indefinido: Agora é real, são só os 2!

Balança a cabeça, se afasta quase correndo, seu oponente tenta chutar
Vai recuperando os sentidos, e no meio disso leva um chute no joelho
Joelho que dobra, o oponente se afasta, na dor ele lembra que não pode perder

Lembra dos campeonatos, das medalhas… odeia aquela cor cinza da prata.
Lembra das fotos, ele sempre com cara de choro no 2º lugar do pódio
Ninguém lembra das vitórias na semifinal, os amigos lamentam a “má sorte”

Chega! É hora de vencer, não existe medalha pra quem fica com a cara no chão.
Lembra do treinador perguntando quem foi que pisou na lua em segundo?
Quem foi o 2º colocado do campeonato? Quem é o 2º artilheiro das copas?

Ninguém sabe! Não importa! Ele quer ser lembrado, quer ser importante!
Se recupera e no meio do suor sente gosto de lágrima, mas ele quer é sangue!
E lavar com a vitória sua carreira cheia de “quase lá” e tapinhas nas costas…

2º round, 20 segundos, 02 homens e nada mais que os possa impedir.
São 2 pernas e 2 braços, vence quem vencer primeiro a si mesmo…
Um dois, um dois… ele conta mentalmente a sequência dos jebs, de novo

Um chute na altura da costela, o adversário perde o ar! É sua chance
Dá um gancho, derruba e monta… ground and pound e raiva, muita raiva
Sua sequência só se encerra quando o juiz entra na sua frente. É o fim da luta!

Abraça quem aparecer em sua frente, sorri com o protetor como dentes
Alguém lhe traz o cinturão, ele recusa, procura achar o seu oponente!
O abraça e lhe confidencia: Hoje era seu dia, foi sorte eu ganhar…

Não era verdade, mas lembrou como é quando as luzes não estão mais em você
Lembrou como queria ouvir qualquer coisa pra poder se agarrar
Então levantou os braços e pode respirar um ar que não conhecia: o ar de vencer!

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: