Garoa na Praça – Gustavo e o começo do fim

05/10/2013 Gritos do Nada

Gustavo se arrepende de ter ido “pra rua” de bermuda… por mais que sua bermuda branca chame muita atenção o frio e o vento que castigam as árvores da Praça de República, e fazem arrepiar sua perna sem pelos, só pode deixá-lo arrependido.

Ainda é cedo, mas outros garotos começam a ir embora… dia frio, pouco movimento, os clientes em casa se enganando com suas mulheres e filhos… Gustavo não desiste! Ganhou uns trocos recebendo sexo oral num táxi estacionado perto da praça, mas queria mais.

Até que a garoa chega, e ai a noite acaba de vez e nem mesmo Gustavo e sua vontade de ganhar grana resistem…

Fecha até em cima a jaqueta e corre até a Marques de Itu…

Gustavo chama muito a atenção, 1,90, pele morena de sol, cabelos levemente loiros, mas não tem um rosto delicado.
Tem o queixo forte e quadrado, olhos verdes escuros… tudo isso fez muita grana enquanto tirava fotos para catálogos e desfilava em shoppings para marcas de roupas desconhecidas…

Todos diziam ter uma carreira brilhante de modelo pela frente… quem sabe internacional? Por que não?

Mas não… isso já foi, se perdeu entre os jantares com donos de loja, testes do sofá para figuração na Malhação até a vinda pra São Paulo e a nova “carreira” que ele encara cheirando várias carreiras.

A realidade agora é o caminho até o apê pensando que vai comer de novo aquela merda daquela lasanha de microondas e beber até dormir… evitando assim a tentação de ligar novamente para a mãe.

Aperta o passo porque a garoa aperta e se esforça pra tirar da mente a imagem da mãe evangélica e da irmã grávida com 15 anos, o dinheiro que manda todo mês que a mãe não pode saber de onde vem…

Pra esquecer disso tenta lembrar o nome da moça que o agarrou na última balada, enquanto transavam no banheiro ela sussurrava o nome em seu ouvido… ele esqueceu.

Fica sempre pensando em que diabos ele se tornou, era um garoto evangélico, participava da igreja, grupo de jovens e tudo mais, mas logo esqueceu do pastor quando começaram a perceber sua beleza, as meninas que quase faziam fila pra ficar com ele, era o cara mais concorrido do colégio e depois da praia…

E ai numa noite perdida, bêbado, deitou-se ao lado de um amigo e seus lábios se tocaram… ele socou o amigo e correu do apartamento… mas não sentiu nojo, enquanto corria percebeu que havia algo diferente naquilo…

Ficou meses evitando ver o tal amigo, passou a perceber os caras da academia, do surfe… sem que parasse de olhar pras meninas, quase entrou em parafuso!
Reviu o amigo e ficaram, foi tudo novo, estranho, forte… mas ele se sentiu bem no final.

Volta sua cabeça pra rua molhada e com pouco movimento… a garoa virou chuva e ele correu desviando dos mendigos que dormem sobre a marquise de um dos prédios escuros que tem no caminho…

O celular tocou, numero desconhecido… não atende, hoje não quer nada além da lasanha de microondas, as lembranças das noites passadas e uma garrafa de Whisky barato…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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