A crueldade do espelho ou meninos fazendo a barba.

06/06/2013 Gritos do Nada

Tomei um soco!
Metafórico, pois o meu espelho não é capaz disso… Aliás, ele é capaz apenas de me mostrar meu próprio rosto e nisso ele é bem cruel!

Voltando ao soco, metafórico, ele me foi dado quando vi, pela primeira vez, o meu primeiro fio branco de barba da minha vida!

Foi terrível!

Alisava a barba, na vã tentativa de penteá-la, e do lado direito do meu rosto, na mesma altura do meu lábio inferior vi um impávido fio branco!! Destacando-se contra o fundo preto formado pelos outros pelos…

Veio a mente a primeira barba, que nem barba era na verdade.
Uma “relva” de alvos pelos quase transparentes que, aos 12 anos, achei por bem raspar. Sem nenhuma experiência e com vergonha da tiração de sarro que meu pai faria quando eu pedisse pra ele me ajudar, entrei no banheiro, tranquei a porta e me encarei no espelho: ninguém mais, além de mim,  para “ver” aquela barba!!

[quote_left]Minha mulher logo sugeriu arrancar o pelo! Achei a solução drástica (e claro que não quero sentir essa dor!)…[/quote_left]Abri o armarinho e peguei a “bic” com a qual meu pai fazia sua barba. Aquele aparelho de barbear amarelo, que estava velho e que até hoje não consigo usar, foi quem tirando meus raros pelinhos e deixando no lugar uma pele avermelhada e ardida me iniciou nesta vida. Obviamente não passei espuma antes e nem depois creme pós-barba.

E dessa forma fui “zuado” pelo meu pai do mesmo jeito, pois ele me “achou” na saída do banheiro, não sei se com o rosto vermelho de vergonha ou vermelho de inflamado, a verdade é que ardeu…

Então desde os 12 anos, pasmem, eu faço a barba!

Mas é obvio que isso tornou-se um hábito frequente apenas aos 16 ou 17 anos e desde então preciso fazer a barba 3 vezes por semana para não parecer um mendigo! (Muito embora eu pareça um.)

Costumo comparar o ato de fazer a barba com a nossa eterna procura por alguém, porque depois que começamos essa procura nunca mais paramos… assim como fazer a barba.

Se pudesse dar um conselho para cada garoto imberbe que vejo forçando a vista no espelho para ver um bigode onde há apenas um busso, diria: Não comece agora! Nem a fazer a barba e nem a procurar mulher… Você nunca mais parará, então adie.

Pois bem… ai hoje, do alto dos esperados 30 anos, ela me traiu! Quem?!?![quote_right]Faço a barba, pasmem, desde os 12 anos, mais ou menos…[/quote_right]
A melanina, maldita!, que resolveu começar a debandada pela minha preta e orgulhosa barba!
Quem me viu sabe que minha barba é bem serrada! Um preto brilhante enfeita meu rosto, domina meu queixo e bigodes… é linda! Ou era…

As pessoas tem me perguntado se acho que terei cabelos brancos… Costumo responder que ficarei feliz se tiver cabelos, assim no plural, e de qualquer cor!

Minha mulher logo sugeriu arrancar o pelo! Achei a solução drástica (e claro que não quero sentir essa dor!)… resolvi então tomar uma decisão ainda mais drástica…
A barba logo abandonará meu rosto, afinal se uma barba preta já é capaz de me dar em aparência uns 3 anos a mais, imagina uma com pelo branco? Vou tirar.

Mas há algo aqui… Muito embora possa voltar a tirar a barba 3 vezes por semana e nunca mais dar de cara com esse pelo, a verdade é que ele inaugura outra parte da minha vida que será irrevogável: a velhice.

Assim como há uns 18 anos aquela bic amarela e velha inaugurou minha barba…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: