O ser invisível – As noites frias na Praça

30/05/2014 Gritos do Nada

Limpou a boca na manga da camisa puída
Olhou o céu cinza e sentiu as gostas da garoa

Sentou-se sobre o meio fio com os pés na sarjeta
Deixou-se sentir o frio, escarrou e baixou a cabeça

A água suja que agora escorre livre pela rua
Parece a lágrima suja que escorre por seu rosto

Passou da fase de sentir saudades ou desgosto
Sente agora apenas fome, frio, sono e abstinência

Não percebe que suas conversas já são sem nexo
Percebe os pés descalços pisando o gelado asfalto

Discute aos berros com o poste onde cambelando bateu
Mas sabe que precisa de cada centavo que possa pegar

Conta tudo pela metade e abruptamente sai andando
Ri alto das palavras do pastor que prega no meio da praça

Nunca tira as roupas, vai colocando as que ganha por cima
Não dorme pensando em amanhã e hoje não sabe o que queria

Ele vagueia sem lados entre a loucura e a lucidez
Dança em cada lado com a destreza de um bailarino

As vezes existem para olhar nossos carros e lavar parabrisas
Deixam de existir quando os vemos largados no frio da madrugada.

Perdeu o fio da meada, da conversa e da vida
A fome é um monstro que lhe ataca a barriga

Sonha? Não sabe ou não lembra… como saber?
A realidade é um pesadelo do qual não se acorda

O escape pode ser o Duelo, o cachimbo… o morrer
Deitar na calçada e quem sabe nunca mais levantar

Vive os minutos, não os dias ou os anos
Tudo é imediato, tudo é pra agora ou nunca

Ele se perdeu? Ou será que nós o perdemos?
Emergidos em nossos mundos paralelos

Eu vi um deles e parei para ouvir suas lamúrias
Me perdi em suas histórias e não sei repetí-las

Na praça no frio todos se tornam apenas um
E cada um é um abismo cheio de dor e lembranças

Nós o chamamos de mendigos, moradores de rua
Lhes tiramos sua humanidade, para nos sentirmos melhor

Sabe aquele homem com o rosto sujo, com cheiro ruim?
Que lhe pede um trocado e te assusta? É uma pessoa.

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Postagens

13/11/2024 Gritos do Nada

Vilão?

todo mundo é vilão na história de alguém o foda é ser vilão na própria história também a faca rasga o braço e o que sai é sangue ou sofrimento?eles nem olham no seu olho, mas rápido dizem “eu lamento”lamento o que, diz aí? lamenta pelo que eu fiz ou pelo que sofrilamenta pelo que […]

Leia mais…

09/11/2024 Gritos do Nada

Os gritos que não dei

Seguro o choro segura o choro!Que agora é hora de sorrir! finge um sorriso pro insta!segura essa lágrima que quer cair!! todo mundo te pergunta se você tá bem, mas ninguém quer a resposta!Cada um fechadinho no seu mundinho de bosta!abre a janela, tira o olho do celular! Pega o sol, a vida bela, se […]

Leia mais…

19/01/2024 Sonhos Viciados

Reza em hospital

Tento lembrar se existia paz quando minha única morada eram as ruas líquidas do ventre da minha mãe. Reza em hospital. Peço a Deus ao menos os grunhidos das crianças lá fora.  Mergulho no meu mais triste silêncio. Os doutores, os relatórios, os sinais perversos dos desastres naturais que nos arrebatem. Eu rezo, quem sabe […]

Leia mais…

24/12/2022 Gritos do Nada

Jogadas ao vento

As paredes não enxergam Mas dizem que tem ouvidos Beliscam azulejos, beijam cotovelos Os loucos fazem o impossível Deita sobre a relva o amor Que se desfaz em orvalho na grama Só entende quem ama! Mas tudo está por dizer Nada NUNCA foi feito E sem feito nada será Cubro o rosto com a capa […]

Leia mais…

22/12/2022 Coletivo

Ruas, pessoas e perdidos

Rua, pessoas e movimentos estreitosOlho pra fora, o mundo já não é o mesmo Prende a respiração, segura o choroOlho pra dentro, vazio e desespero. No chão bitucas de sorrisosNo céu o canto triste das estrelas Tudo é meio, nada é fimOs mesmos erros que não canso de repetir Toda noite eles cantam pra mimAmanhã, […]

Leia mais…

26/08/2020 Sonhos Viciados
O que será que leva dentro? O suor triste do operário?

Uma piñata feita com uma mochila Rappi

Artista



Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: