Poliana – Os medos da Noite

05/05/2014 Gritos do Nada

Desceu do carro o mais rápido que pôde, o cliente é bom, mas tem vergonha do que faz… Casado, como quase todos, e como quase todos, passivo.

Antes de descer olha mais uma vez o senhor grisalho com traços europeus que agora enverga uma cara digna, severa e demonstra até mesmo um ar de superioridade à figura espalhafatosa e desavergonhada dela.
Ela o encara mais uma vez, seu rosto vai se desfazendo da expressão severa para uma cara de vergonha e submissão, como a que ele fazia quando virava-se para ser penetrado por Poliana!
E ela adora isso!

São apenas 2 horas da manhã, da bolsa ela tira um RedBull amaçado abre e dentro dele joga um rebite, tá economizando na coca pra poder trocar de carro.

Caminha empertigada até o bar da esquina, ouve as buzinas, sorri, mas quer uns minutos de folga, o distinto senhor deu-lhe uma boa cansada e também R$ 200,00.
O bar de azulejos que já foram brancos, e que agora amarelam com a gordura da chapa, serve de cenário para um grupo que se acotovela: 4 homens que fingem estar numa noite de zueira, quando na verdade sentem medo do desejo que sentem pelas “meninas” que entram e saem do banheiro do boteco.

No balcão de formica branca Poliana descansa os cotovelos, inclina-se para dar aos rapazes algo para se distraírem enquanto espera pelo bauru que pediu.

Ela os ouve confabulando, riem, apontam, coçam a boca até que um deles se levanta e caminha até ela…
Antes que ele possa tocar na sua bunda Poliana o interrompe, sem olhar para trás:
Só toca se for pagar… é meu ganha pão e não dou amostra grátis.

O rapaz fica vermelho enquanto seus amigos gritam e riem desbragadamente…
Ele quis responder:
Se for baratinho nois come esse cu ai, carai!

Os rapazes riram novamente, Poliana fica de frente para o rapaz, é muito mais alta que ele e o encara de cima a baixo:
Dinheiro pra pagar você deve ter, quero ver ter coragem de ir comigo e resistir a não me dar essa bundinha!

O riso foi mais forçado, aquele medo de sentir desejo gelou as espinhas dos caras, todos coçaram a nuca, viraram-se e o rapaz voltou pra mesa.

Poliana lembrou da primeira noite, do medo, da brochada, da sensação engraçada de ter um senhor de bigode lhe pagando para que ela fosse o homem dele.
Ela no começo não gostava, mas a rua foi lhe tirando aos poucos um resto de feminilidade, um quê de frescura que ela ainda tinha quando colocou os silicones e trocou o guarda-roupa.
Mas Poliana rápido percebeu que nunca quis ser mulher, nem homem… e isso a atormenta no fim de cada noite, de cada gozo, de cada vez que conta o dinheiro: O que eu sou?

O rapaz tenta novamente:
Mas então você cobra quanto?
Pra você gracinha, 1 hora por R$ 30,00. Responde Poliana abrindo exageradamente a boca.
Mas é R$ 30,00 e você faz completinha, né?
Poliana respira fundo e fala com a voz grossa:
Amigo, sou travesti… completinha comigo é só se eu comer seu cu, né?

Termina seu bauru e sai do bar rebolando ao som das risadas… ainda tem muita noite pela frente.

As meninas todas em polvoroza, a rua negra, a noite cinza eram o cenário das roupas mínulas e fluorescentes com que elas se exibiam nas calçadas convertidas em passarelas.

Os homens em seus carros com insulfilm passavam em marcha lenta correndo os olhos pelos corpos enormes e algumas vezes disformes dos travestis. A cena era quente, mas era triste.

Alguns passam buzinando, xingando, berrando… a polícia é figura exótica nesta rua onde homens de silicone são o normal.

Poliana enconta-se no vão de uma parede e de outra entre duas fábricas para pode ver sem ser vista, ainda não quer voltar pro carro de ninguém.

Assiste o entre sai do drive-in, vê pelas frescas dos vidros rapazes de gel no cabelo e tatuagens cobrindo seus braços musculosos, vê senhores engravatados lambendo os lábios e imagina o quão hipócrita é o preconceito que permite que esses homens invadam seu mundo, mas impede elas, as travestis, de invadirem o mundo deles.

Cada coisa em seu lugar.

Lembra das palavras dele: “Cada coisa em seu lugar“, cada palavra um tapa na cara mais forte do que jamais recebeu… “Cada coisa em seu lugar”
Deixou ele pra trás, junto com sua vergonha, com seus sonhos… “Cada coisa em seu lugar

Um grito a tira de suas lembranças!

Me solta, porra! Me soltaaaaa!

Uma travesti grita com a cabeça enfiada na janela do passageiro de um carro que começa a andar…
Ele começa andando, mas o carro aumenta a velocidade, ela tenta correr, arrasta o sapado no chão e acaba ficando descalça, volta a tentar correr

Todas começam a correr atrás, gritam, mandam parar e nada…

Poliana tira os sapatos de salto muito alto e corre, já percebeu que é sua colega de quarto que é arrastada.

A cena dura alguns segundos, o suficiente pra mais de 300 metros de gritos e angustia, enfim ela é solta e rola pelo asfalto até bater com as costas na guia.

Algumas correm a socorrê-la, mas Poliana passa direto, quer vingança! O carro não consegue ir muito longe por conta do trânsito.

Mas sua amiga, Alexia, grita, implora para que Poliana pare, pede para deixá-los ir.
Poliana não ouve, continua correndo, tira da sua bola um 38 cano curto que aprendeu a carregar e prepara-se para atirar quando Alexia grita:

Pára!! É meu irmão! Pára!!!

Poliana gela, o mundo todo parece ficar paralisado assim como ela… Diminui o ritmo da corrida, caminha e quase se arrasta, não tem coragem de virar pra ver Alexia chorando no chão:

É meu irmão… MEU IRMÃO! Grita e chora Alexia entre os seus soluços e os abraços que tentam levantá-la do chão…

Poliana caminha até a calçada, guarda a arma, senta-se no meio fio e lembra:

Cada coisa em seu lugar…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: