Tem dias que os fardos pesam mais
Nesses dias a vida fica mais pesada
E só o bar e sua cachaça me deixam feliz
Tem dia que o capataz pede mais pressa, irrita-se, impaciente
E cada grito, palavrão e ofensa são como lapadas de um chicote
E nesses dias, entre as sacas do porto, penso: Somos mesmo gente?
Burros de carga com as costas cheias de sujeiras, de marcas
Nossas cabeças envergadas pelo peso das sacas e do cansaço
Nos estamos cansados, mas as barrigas de nossos “donos” estão fartas
Mesmo o capataz é só mais um de nós, muito embora finja não perceber
E grita gesticula, distribui tarefas… e um dia ouvi dizer acabou a escravidão…
Deve ser porque no fim do dia soltam as amarras, e nos permitem beber
Tem horas que um velho que bebe no bar nos fala dos nossos direitos
Cospe no chão pra falar do nosso chefe, bragueja, xinga… não entendo.
Ele fala algo como “homo homini lupus”, ninguém entende o sujeito
Outro dia alguém disse que o velho fala “O homem é o lobo do homem”
Fiquei parado uns segundos, até o capataz me xingar, e entendi
Aqui carregando as sacas somos sim gente, embora nos usem
E lá, rindo dos nossos esforços, está o lobo, que nos morde e sorri
Me jogaram outra saca nas costas, talvez amanhã eu não possa aguentar mais
Mas essa semana tem outro jogo… e ninguém pode mudar de assunto.
E o bar está lá, sempre aberto pra afogar minhas dúvidas…
