Moça do ônibus

04/05/2012 Colunas - Zumbido Fugaz

-Esse número de telefone não existe…

Por que não anotei o número dela corretamente? Ou será que ela queria se livrar tão rápido de mim que me deu um número qualquer e foi embora zombando da minha cara?

Avistei ela hoje por volta das 10h no ônibus, lendo algo que eu achava ser meigo, mas ao me aproximar era o Panorama do inferno e fiquei intrigado de o porquê daquela colegial estar se deliciando tanto com algo daquele tipo. Quando o olhar dela levantou para descansar os olhos da leitura aproveitei e falei algo que achava que nunca falaria, inventei uma pergunta.

-Você esteve no Anime Friends ano passado?
-Sim, estive.
-Tenho quase certeza de que era você então… Você fez cosplay!
-Não fiz não, eu apenas costuro e ajudo meus amigos com os cosplays, mas nunca me vesti.
-Ah, então a moça se parecia muito contigo.

Ela ficou sem graça ou muito irritada, olhava para todos os lados do ônibus, as vezes parecia que ia abrir o mangá, as vezes não. Finalmente um lugar a seu lado. Nunca fui muito bom com as meninas, mas achava que essa estava na minha.

-Nossa interessante você montar os cosplays. Eu sempre quis fazer, mas sabia que não ficaria bom, então sempre fui adiando.
-Ah.
-Me passa seu número? Não queria perder contato com uma pessoa inteligente que sabe mais de assuntos que eu gosto.
-Ah claro, meu número é 69699666.
-Ótimo! Estou com bastante crédito, lá pela noite te ligo quando voltar do trabalho, posso?
-Após as 23h, pode.
-Por que só depois desse horário?
-Porque eu saio da faculdade.
-Você faz faculdade? Mas parece uma menininha.
-Tenho 21 anos, estou no último ano de jornalismo.
-Que bacana. Preciso descer! Espero revê-la logo.

Ah, ela lançou um sorriso tão fofo que agora acho que estava mais para cínico, mas naquela moça só via atributos bons.
Realmente queria chamá-la para sair, para discutir mais sobre cosplays, mostrar para ela minha coleção de personagens da disney, meus desenhos abstratos, meus poemas inspirados na vanguarda do cubismo, os dentes do meu avô que eu coleciono, até quem sabe meu quarto incrivelmente charmoso azul bebê.
Mas quem sabe ela não era para mim. Nunca me interessei por estudar, enfim…

Vou jogar vídeo game que é mais importante.

Um certo alguém simples que busca conhecimento e auto-conhecimento através dos escritos. Que se encanta por olhares e perde a noção do tempo tentando desvendá-los...

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: