Conversas mornas do cotidiano

04/01/2012 Colunas - Sonhos Viciados

– E aquele seu piercing?

Ela pergunta no seu celular mp9.
Quatro segundos. um bom tempo pra uma resposta aberta.

– Ah! Eu tenho paixão por piercing.

Sinto que é um elogio de quem tá se enamorando.

– Vi no face suas fotos, pq não usa mais?

Penso se os netos dela vão entender isso no futuro, face! se escreve face, se lê feice e era uma plataforma de comunicação online muito usada na época. Que na verdade se chamava Facebook. Sei lá, vou junto. Philip k. Dick destino Itam Paulista. E o que ele diria sobre isso?

– Entendi, mas você tirou por causa do serviço?

O serviço, esse monstro negro que nos engole e dorme embaixo das nossas camas. Lembro do pensador que já nos alertava, o trabalho aliena. Agora incluam nas suas listas, também tira piercing.

– Tenho um papo sério pra ter contigo.

Mulher adora isso. Espero que elas tenham algum tipo de prazer quando iniciam esse ritual. E gostaria de deixar claro que homens não sentem nenhum. Nós damos todos os sinais, mas todo cara já ouviu isso e vai continuar ouvindo essas.

– E aquela sua ex? É ex mesmo ou tem um jeitinho de volta.

Juro eu contei, trinta e três segundos de resposta. Deve ter sido boa.

– Nossa! Que chato.

Mais oito segundos. Ela solta um riso de canto de boca, confirma que recebeu a resposta que queria.

– Ah! Legal, pq vai saber né, não quero ser chata.

Ela rebate já de pronto, estuda mais seu novo-possível-qualquer-coisa

– E seus planos, me disse de um celtinha que quer comprar. E depois disso, que planeja, o que quer?

Ainda bem que ela avisou que tinha um papo bem chato.

Um cara entre vielas cheias de gente e ônibus lotado. Que se perde em alguns bares e se põe a ver a velocidade dessa gente. E rir da estupidez dessa lógica.

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: