Conto Carnavalesco – Homem da Meia Noite

24/02/2012 Gritos do Nada

Como posso estar tão cansado ainda no sábado de carnaval?
A resposta certa é com certeza a quantidade de bebida e a longa viagem de Porto de Galinhas à Olinda, mas a resposta que gosto de usar é a falta de amor e de beijos que me assolam nesta atual festa da carne… pra não dizer que fiquei no zero, a única carne que provei foi o urutu que comi na praia…

Mas não podia mofar na casa que alugamos em Olinda!! Tinha o dever moral de sair!

Mas o banho antes da partida não foi revigorante, e mesmo diante de tantas ofertas, deixei pra lá os Engov’s e fui de “cara limpa” pra minha grande missão: ver o Homem da Meia Noite durante todo seu trajeto.

Subi a rua do Bonsucesso, com o animo de um condenado que vai a forca, e lá adiante estava o tal do boneco do Homem da Meia Noite, e eu, folião cansado e sem rumo só queria segui-lo pra ter o que contar na triste São Paulo de quarta-feira de cinzas e trabalho…

Mas achei meu rumo! E não foi nos versos do frevo e nem nas placas, o achei num rebolado que pulava e dançava mais a frente.
Grudei meus olhos naquela bunda! Era como se eu fosse um inseto e ela uma luz fortíssima. Subi outra ladeira, e mais outra, e ela a distância de um pequeno pique, mas e a coragem? Conseguiria superar a vergonha?

Homem da Meia Noite balançava seus enormes braços e a música, por mais alta que fosse, era inaudível à mim, que só tinha ouvidos para minhas próprias suplicas: Vá até ela, vá até ela…

Já estava arrependido de ter ido de chinelo quando resolvi que era mais que hora de abordar a mulher dos meus sonhos, me aproximei e delicadamente toquei seu ombro forte. Ela não virou na mesma hora, mas pôs sua mão sobre a minha, percebi então ser quase do meu tamanho e já sonhei com as possibilidades de uma “boa noite” com ela na casa alugada na Avenida da Saudade…

Oras, pensei eu, esse é um sinal! O Homem da Meia Noitee vagava pelas ruas de Olinda, na derradeira hora do dia, pulando as janelas das donzelas para namorá-las, era um sinal para que eu não deixasse passar essa oportunidade!

Cochichei uma dessas coisas que a gente nem lembra o que foi, talvez culpa das espanholas e caipirinhas que tomei, ao invés do tal Engov, para sentir a segurança que precisava. Ela se virou, e bom, virou “virou” outra coisa! É, ela não era mais “ela”…

Afastei-me o mais rápido que pude, não rápido o suficiente pra não ser visto pelos amigos que me acompanhavam com o olhar de longe, que a julgar pelos fortes risos já estavam sabendo a fria em que me “meteria”, a tal bunda era uma pegadinha, e passei mais um dia sem carne… dessa vez, ainda bem!

O que me deixa mais triste é que a melhor história que vivi no Carnaval não é exatamente uma história onde eu tenha me dado bem…

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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