Katarina com K

15/08/2012 Gritos do Nada

O nome era Katarina, com K mesmo…

Um bom cronista escreveria ao menos uma lauda só pra falar do nome da morena de olhos escuros e pequenos, de boca larga, daquelas mulheres que sorriem a tudo e a todo, mas eu não, mal consigo uma linha pra falar do nome, posso dizer que é porque sou um péssimo cronista, mas a verdade é que Katarina merece uma crônica sobre ela, seu nome é uma parte ínfima do que ela é…

Porém ao pensar nela o que me salta a memória é o modo jeitoso como dizia seu nome: KA TA RI NA.
As silabas separadas, ela parecia querer ter a certeza que vamos entender o nome… O que me lembro mesmo é da sua língua tocando os dentes entre o KA e o TA e entre o RI e o NA.
Escrito não quer dizer muita coisa, mas a lembrança de ver a língua dela tocando de leve os dentes… Ah… Ainda mais que ela é meio dentucinha… poderia sofrer horrores só pra sentir aquela língua tocando na minha…

Escrevi poderia né? Pois é, Katarina sequer me deixou sofrer por ela, ria das minhas investidas, me abraçava, me dava um beijo no rosto e continuava a conversa… a odiava por breves 2 segundos, e já estava babando novamente…

Lembro que no grupo de amigos todos tentavam e eram do mesmo modo rechaçados… Era uma vergonha.
Mas nenhum arredava o pé de fato, eu era o que fingia melhor que não tinha mais interesse… Mas só fingia mesmo.

Havia disputa para decidir quem a pegaria na casa dela, e era morava longe de todos, mas… Ah senhores ela tinha um cheiro de banho tomado quando saia apressada da garagem dela pra dentro do carro, que com certeza valeria pegar uma Marginal infernal de fim de tarde todos os dias…
Era um cheiro fresco, de sabonete e creme… Não sei como ela fazia aquilo, mas o carro ficava suave quando ela entrava.

Também era praxe ninguém deixar ninguém ir pegá-la ou levá-la sozinho, sempre tinha um “amigo” junto… Pra atrapalhar?
Bom, com ou sem o amigo do lado, sabíamos, embora não admitíssemos, que ela não era pra nosso bico.

Até porque Katarina é aquele tipo de mulher que acaba ficando com um cara babaca… não o “nosso” tipo de babaca, mas aquele babaca sabe? Quem é homem (e não é esse tipo de babaca) vai entender. Ela sempre ficava, e obviamente, sofria, pelos caras que não fazem questão de ser amigos de ninguém que ela conheça, que a tira das rodas e lugares que ela costumava freqüentar, e de repente, quando fartava-se da beleza e “fartura” de Katarina, nos “devolvia” em volta em negro e chorando…

Ah e como sofria lindamente Katarina!!!

Doía vê-la sofrer, mas era lindo ver seu queixo (fino sabe?) tremendo antes de ela tossir mais uma choradeira… e CHORAVA! Como chorava, ela num tinha vergonha de sorrir e nem de chorar! Era uma Iguaçu de lágrimas!!
Dizia se cansar desse tipo de cara, que ia procurar quem a quisesse sem que ela mudasse… Isso nos atiçava, ficava por meses andando conosco, até conhecer outro babaca em lugares que não iríamos, como numa aula de Ioga ou um encontro de budistas… e lá se ia Katarina…

Um dia essa lógica num fez mais sentido… todos começamos a esquecer Katarina, sua beleza tornou-se “comum”, como o parisiense que olha com olhos de enjôo a Torre Eiffel que vê todos os dias, ou o carioca que num impressiona-se mais com a beleza da orla… de repente, PUM, ela era comum.

Então passamos a achar que ela nos sacaneava, só vinha a nós quando sozinha e sem carona pras baladas, pensávamos que ela devia rir da gente, todos atenciosos implorando um sorriso, um afago…
E um a um começamos a ver outras garotas, namorar… e de repente Katarina não fazia mais parte nem de nossos sonhos e nem de nossas lembranças…

Lembrei dela por ocasião de vê-la na rua. Andava de mão dadas com um cara (babaca com certeza) com cara de mau-humor e óculos escuros…
Ainda mantinha os cabelos longos e cacheados, as roupas leves, o andar “dançarino”, havia ainda o encantamento, mas, sei lá… acho que o feitiço num pega mais em quem já conhece o roteiro de Katarina.

Brindei outro dia, com os tais amigos, ao assombro de ver Katarina pela primeira vez, sorvemos nossas brejas, e cada um, com o olhar perdido, ficou lembrando dela…

Menti, ela num faz mais partes dos nossos sonhos, mas é uma das lembranças doces que carregamos. Tin tin.

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: