Tecno-existência II – Um personagem vazio…

26/04/2013 Gritos do Nada

Deu check-in na estação do metrô
Procurou, vã tentativa, um ponto de wifi
Pensou em postar que hoje chorou
Sorriu, achando isso clichê demais

Saiu do vagão e deixou-se levar pela escada rolante
No caminho reclamou alguma coisa na TL do Twitter
Leu um retweet: “Idiotas fazem disso alto-falante
Vestiu a carapuça! Mas chegou o busão e teve que correr

Sua vida era o virtual e azul mundo da telinha
Sua realidade era o horário do trem… o tédio
Era grande o numero de FACE friend’s, mas era sozinha
Seus sábados eram longos… na tristeza e no ócio

A faculdade era outra coisa a se reclamar
Não sabia e nem contava mais o tempo pro fim
Fazia estágio e decepcionava-se em trabalhar
Mas o futuro era uma merda, era melhor pensar assim

Sua vida era vista nos aplicativos do celular
Instagram, foursquare e tudo mais…
Nem mesmo ela sabia a quem tudo aquilo podia interessar
Mas aquelas telas todas lhe deixavam menos vazia

Vivia as turras com gente no Twitter
Gente ou fake, nem ela sabia mais
Disperdisava seu tempo e crédito
Em discussões que não acabam jamais

Seu pessimismo sobre si era mair que sobre o mundo
Não tinha, não queria, e não podia pensar em melhorar
Suas escolhas eram por mais horas de um sono profundo…
Onde a bebida e os remédios eram o paraíso a se buscar

Saia pouco, poucos amigos, poucos lugares prediletos
Sua falta de habilidade em conversar era latente
E quando falava comia letras… era quase um dialeto
E de tanto “haha” esqueceu que pra rir precisa dos dentes

Era viva de verdade apenas no mundo das fotos estáticas
E sem estar lá, meu Deus, não sabia o que seria vida
Dividia sua falta do que falar em vários perfis… aética
E se via num mundo triste, falso…mas não via saída

Pensava em se matar e por em fim em tudo quase todos os dias
Pensava, mas não fazia, afinal de que vida iria se livrar?
Dessa semi-vida de trabalho, faculdade, tédio e sem saída?
Ou a vida dos perfis… onde tinha controle sobre o que mudar?

Ah como ela queria ser uma daquelas fotos em que sorria
Mas o motivo pro sorriso? Não conseguia se lembrar…
Seus perfis 100% preenchidos mal escondiam que era vazia
Que era triste, má… mas ela sempre preferia nem pensar

No mundo virtual ninguém lhe esquecia…
Era quase sempre onipresente
Na vida real real ninguém lhe conhecia…
Não passa de um corpo de alma ausente!

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: