Outra noite

25/09/2013 Gritos do Nada

Gustavo desceu do carro ainda com os cabelos molhados, o dono do carro não lhe deu tempo de dar tchau e acelerou seu Civic como se quisesse deixar pra trás não só Gustavo, mas o que fizeram nos últimos minutos.

Tentou secar o cabelo com a camiseta, fazia frio, mas ele estava de blusa e já ia jogar fora a camiseta que estava rasgada, graças ao ímpeto do último cliente.
Ele não se escandaliza mais com esse nojo pós-programa, sabe que eles voltam e cada vez mais propensos a lhe pagar o que ele pedir…

Joga a camiseta no lixo mais próximo e desce a rua até a esquina onde estava. Tira do bolso da calça uma capsula branca, cheira e toma um rebite, um líquido preto com sabor forte… Parece que essa noite fará um novo programa.

Chega em casa sempre acabado, toma um banho longo, quer tirar de si mais que a sujeira das ruas e das noites, quer tirar de si os toques e beijos que ganhou, quer tirar de si os corpos que penetrou, os braços que apertou, quer tirar de si aquilo que é…
Mas não consegue, seca o corpo enquanto se olha no espelho, lembra das namoradas, dos namorados… Não lembra como começou com isso, mas sabe estar preso.

Sua rotina é a noite nas ruas, vendendo não seu corpo, mas um pouco de afeto a homens casados e medrosos, a senhoras solitárias e jovens tímidos… Não conta quantos, conta quanto ganha, não demonstra sentimento algum, só goza se pedirem e mesmo assim isso custa grana.
Tem na cabeça uma tabela, valores que mudam de acordo com o carro que chega, o rosto da pessoa e o que ela quer fazer. Não se sente uma mercadoria, leu muito sobre serviços e mundo corporativo e se considera um prestador de serviços… Se engana.

Gustavo escreve um diário (que ele chama de Diário das Noites Sujas), onde descreve suas noites, seus medos, as taras a que se submete, as brigas, as bebedeiras… Gustavo só não confidencia ao diário seu choro baixinho quando volta pra casa no último banco do ônibus. Não confia nem no diário pra descrever as conversas com a mãe carioca, que diz rezar por ele todas as noites e confiar que logo o filho vai estourar na carreira de modelo…

Daí Gustavo lembra como começou, dos testes, dos jantares onde era convencido de que tudo aquilo era normal, que todos passavam por isso… Lembra-se das mãos em suas coxas a cada conversa, da insistência em lhe pedir fotos mais ousadas… e quer voltar a esquecer!

Na academia corre por meia hora na esteira, no fone uma música qualquer bem alta, se sente estranho, se sente mal…
Pára a esteira abruptamente e corre pro banheiro… Vomita tudo! Não o que comeu ou o que bebeu ou o que cheirou… Gustavo sabe que regurgita a noite passada, o gemido sôfrego do seu cliente, Gustavo põe pra fora a vergonha que finge não ter.

Sai do banheiro e respira fundo, no celular uma nova mensagem: “Oi lindo, hoje vou te alugar pra noite toda”.
Não tem mais volta… Será?

Alguém que se perde facilmente entre cerveja, noites, amores, sexo, shows, músicas, letras, palavras, motos, asfalto, montanhas, amigos e nunca acha que é muito o muito pouco que viveu!

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Acervo público Metropolitan Museum of Arts, créditos: